Arquivo mensal: Junho 2016

Somos muitas vezes treinadores de bancada

Tal como num jogo, é sempre fácil falar quando as coisas já aconteceram…as coisas poderiam ter sido diferentes…poderiam ter sido tomadas outras opções…com o verbo sempre no passado.

 

Não, não vou falar de futebol. Esta expressão surgiu numa sessão com uma pessoa que se reprimia naquele momento, dizendo que não deveria ter falado daquela maneira a outra pessoa.

E, de repente, surgiu esta ideia: somos muitas vezes treinadores de bancada, quando passamos o tempo a dizer que deveria ter feito ou dito as coisas de forma diferente, ou quando achamos que o outro deveria ter feito as coisas de outra maneira.

Dito de outra forma, parece que passamos muito tempo a olhar para o passado e a dizer que as coisas deveriam ter sido diferentes. “Se o arrependimento matasse…” parece ser uma expressão comum. Mas o facto é que estamos a olhar para uma situação que já aconteceu, com informação sobre ela que não estava ao nosso dispor naquela altura.

Será que teríamos agido daquela forma se soubéssemos qual o resultado?

E a outra pessoa? Será que teria as mesmas atitudes ou palavras se soubesse o que iria acontecer?

Tal como num jogo, é sempre fácil falar quando as coisas já aconteceram…as coisas poderiam ter sido diferentes…poderiam ter sido tomadas outras opções…com o verbo sempre no passado.

E será útil passamos o tempo a opinar mental ou verbalmente sobre as situações que aconteceram e que, por mais que tentemos, não vão voltar atrás?

Será útil passar o tempo presente a julgar, recriminar e a tentar mudar o que já não pode ser alterado, tal como muitos treinadores de bancada, que passam a vida a julgar o treinador e o jogo do outro, mas que não treinam e nem jogam os seus próprios jogos?

O que posso fazer com essa informação do passado, que me acompanha ao longo do dia, que me incomoda e que ocupa tanto tempo presente?

Poderei olhar e tentar perceber o que aprendi com esta situação, o que ainda me incomoda e ficar em silêncio para tentar perceber o que isto significa para mim.

Poderei aproveitar para jogar o jogo e aprender: aprender a ficar em paz, com mais serenidade e, eventualmente aprender que cada um faz o melhor que sabe, a cada momento.

A taça das cerejas

 

Umas são rápidas a surgir, prontas a serem olhadas de outra forma. Outras são mais demoradas, levando o tempo necessário para se tornarem percetíveis, para ficarem visíveis. “Deixa cá ver o que esta cereja me diz”. E, logo a seguir, surge mais um pé-de-cereja, a tornar-se visível e a mostrar que estava entrelaçado no anterior.

Quando iniciamos o desligar do piloto automático, surgem assuntos que pensamos estarem esquecidos, mas que estão lá bem atrás, no meio do inconsciente, e que fazem aparecer o que não desejamos na Vida.

Aquelas situações que não queremos olhar e que nunca mais queremos voltar a ver e sentir, mas que se sentem presentes pelo repetir dos padrões nas situações, com as pessoas e com o que surge no dia-a-dia.

O relacionamento frustrante, o trabalho não reconhecido, o amigo que trai, a mãe que controla, o pai ausente, todos fazem parte da taça de cerejas. E quando se inicia o desligar do piloto automático, começam a surgir as situações do passado que ficaram escondidas lá atrás, umas atrás das outras.

Umas são rápidas a surgir, prontas a serem olhadas de outra forma. Outras são mais demoradas, levando o tempo necessário para se tornarem percetíveis, para ficarem visíveis. “Deixa cá ver o que esta cereja me diz”. E, logo a seguir, surge mais um pé-de-cereja, a tornar-se visível e a mostrar que estava entrelaçado no anterior.

E o que é que este me quer mostrar?

E, aos poucos, a taça fica com mais espaço, mais livre, com uma ou outra cereja para olhar e sentir.

Utilizar todos os sentidos é muito útil para se iniciar este desligar, para esvaziar a taça. É muito útil prestar atenção ao corpo e às sensações mais ou menos desconfortáveis que sentimos. Ajuda-nos a prestar atenção a nós, em vez de reagirmos ao que está a acontecer de forma automática. O que é que sinto quando surgem os pensamentos sobre determinadas situações do passado?

Deixa cá ver o que esta cereja me faz sentir?

E o desconforto físico que pode surgir é bem-vindo. Posso parar e questionar onde estou a sentir, em que situações sinto este desconforto. E, desta forma, olhar para a taça e ficar presente para mim.

E porque todo o tempo, é tempo de cerejas.

Bem-vinda tristeza!

 

Achamos que precisamos de estar alegres e, quando a tristeza surge, devemos lutar contra ela, unir esforços para a ocultar e fingir que está tudo bem. Algo semelhante à expressão “temos de ser fortes!”

 

Vivemos por oposição e por comparação, até ganharmos consciência dessa vivência.

Acreditamos que temos necessidade de evoluir, que existem coisas que têm de ser trabalhadas em nós e nos outros, acreditamos que existe algo de errado e que tem de ser mudado.

Mas será verdade?

Em conversa com uma querida amiga, falávamos sobre abraçar a tristeza presente.

Não se sabe muito bem porque ela está ali, apenas se sabe que está. E o que causa o desgaste e a insatisfação, não é essa tristeza presente naquele momento. Apenas a necessidade de lutar contra ela.

Achamos que precisamos de estar alegres e, quando a tristeza surge, devemos lutar contra ela, unir esforços para a ocultar e fingir que está tudo bem. Algo semelhante à expressão “temos de ser fortes!”

E será que não está tudo bem quando estamos tristes?

E o que é que pode acontecer se abraçarmos a tristeza do momento, se a sentirmos na totalidade, dizendo-lhe “olá tristeza, sê bem-vinda”?

Será que esta tristeza se instala permanentemente ou, por outro lado, é vivida e dá lugar a outra emoção?

Esta vida feita de ciclos e de impermanências, será que quer ficar permanentemente triste, ou será que muda, dando lugar a outros ciclos e emoções?

E se eu abraçar a tristeza com alegria? Será que continuamos na dualidade do momento presente, ou será que a dualidade vai dar lugar ao todo, deixando de lado a necessidade de lutar contra uma emoção, apenas sentido o que é para sentir naquele momento?

Bem-vinda tristeza!

 

A ligação dos opostos

 

Sinto-me privilegiada pelas aprendizagens desta situação. Pelo facto da vida me mostrar que cada um é como é, e que é de grande arrogância da minha parte tentar mudar o outro à imagem que eu pretendo.

 

Lutei durante bastante tempo para tentar mudar alguém num relacionamento. Acreditava que essa pessoa deveria ser diferente e quando percebi que isto não iria acontecer, cheguei a dizer que nada tínhamos em comum e que o melhor era ficarmos afastados.

Percebi algum tempo depois que este afastamento derivava do facto de eu não conseguir mudar o outro, pela frustração que sentia de não ter as coisas à minha maneira.

Contudo, e de uma maneira surpreendente, a vida mostrou-me algum tempo depois que aquilo que eu mais apontava como debilidade e fraqueza daquela relação, era na verdade o seu ponto forte.

Afinal não temos muito em comum, é verdade, temos gostos muito diferentes e dedicamos o tempo disponível com atividades distintas e por vezes opostas.

Mas o que une estes opostos, é na realidade o prazer da companhia do outro. O prazer do riso, o prazer do silêncio, o prazer da conversa, o prazer do abraço. O prazer de estar em cada minuto na presença do outro.

Sinto-me privilegiada pelas aprendizagens desta situação. Pelo facto da vida me mostrar que cada um é como é, e que é de grande arrogância da minha parte tentar mudar o outro à imagem que eu pretendo.

Por me mostrar que lutar contra alguma coisa é um processo inútil, pois a vida acontece como tem de acontecer.

E por me mostrar que, se alguém quer estar na minha companhia pelo prazer de estar e não porque precisa de alguém para fazer alguma coisa é a melhor união de todas.

Os opostos ligam-se e não se sabe muito bem porquê ou até quando. Ligam-se pela satisfação de estar, sem justificações ou desculpas, sem adereços ou cenários.

E deixam de ser opostos e tornam-se iguais no desejo comum desta ligação. O ponto fraco passa a forte.

Assim.

Tão simples.

 

Mestres ou Aprendizes?

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Efetivamente, fui mestre durante muito tempo a dar lições aos outros, com base naquilo que acreditava e que achava ser melhor para o outro ou para a situação.

 

Recebi há uns tempos um email onde me era feita uma chamada de atenção sobre o facto de parecer estar sempre do lado das pessoas com quem trabalhava, em vez de estar do lado da empresa.

Aparentemente, eu chamo sempre a atenção para o trabalho realizado pelas pessoas fora do escritório e não vejo que elas não estão no seu local de trabalho.

E o email acabava com a sugestão de “me libertar de preconceitos infelizes”.

Mais do que uma chamada de atenção, a sensação que tive durante a leitura foi de me estarem a “dar uma lição”. Eu deveria estar do lado das pessoas que me davam a lição, em vez de estar do lado das pessoas que faltavam (apesar do trabalho aparecer feito).

Percebi que, noutra altura qualquer, teria respondido de imediato, “dando uma lição” da minha parte, explicando o meu ponto de vista, e tentando mudar a opinião do outro nesta situação.

Efetivamente, fui mestre durante muito tempo a dar lições aos outros, com base naquilo que acreditava e que achava ser melhor para o outro ou para a situação.

A sugestão de me libertar de preconceitos infelizes, pareceu-me muito útil, nomeadamente o preconceito que eu tinha de ter de responder à letra e de dar lições aos outros.

Os preconceitos que tinha e que me levavam a julgar os outros, quando eu achava que deveriam agir de acordo com aquilo que eu acreditava ser correto, que não deveriam tentar dar lições aos outros…quando na realidade eu também sentia essa necessidade.

O que me foi transmitido, não me pareceu ter esta intenção. Mas, em boa verdade, fazemos do que nos é dito ou escrito o que acharmos melhor. Podemos lutar e reclamar, ou podemos ficar em silêncio e tentar perceber se algo nos incomoda.

Não senti necessidade de responder ao email. De certa forma, libertei-me de alguma necessidade que tinha de dar lições aos outros e da necessidade de ser Mestre nesta situação.

Por vezes, surge a vontade de dar umas lições aos outros, e torno-me Aprendiz do momento, quando fico em silêncio para prestar atenção às sensações e aos pensamentos que surgem.

E por vezes reajo e outras vezes fico em silêncio. A diferença que sinto entre o antes e o depois de utilizar esta ferramenta de Educação Emocional, é que a necessidade de reagir é muito menor e, quando reajo, não o faço em modo automático e não espero mudar a opinião do outro. Reajo porque sim.