Arquivo mensal: Julho 2016

Retirar o que não importa

E podemos passar o tempo a olhar para fora e a julgar o que está mal, ou podemos olhar para dentro com curiosidade e perguntar se a camada para onde estamos a olhar ainda nos faz sentido ou é apenas algo que nos acompanhou, mas que já pode ser retirada.

 

Nunca fui muito de retiros…até passar a ser.

Se me dissessem há uns anos atrás que eu iria estar alguns dias a questionar o que vai cá dentro, a reação imediata era rir do assunto e achar que não era para mim.

Até chegar a altura de me sugerirem o primeiro fim-de-semana a olhar para dentro. Algo que surgiu naturalmente e que aceitei com curiosidade.

Foi uma experiência libertadora. Recordo de ter passado muito tempo a gastar os lenços de papel existentes no local. Tal como recordo de ter saído de lá com mais de 30 picadelas de mosquito (bati o record de picadas de insetos nesse fim-de-semana).

Mas também saí de lá com algo de diferente. Ou dito de outra forma, saí de lá sem algumas das cascas que cobriam a minha serenidade.

Como disse uma pessoa quando alguém lhe perguntou o que andava a fazer nas sessões de educação emocional “ando a descascar cebolas!”.

Esta é a grande aventura de um retiro. E pode ser feito durante um fim-de-semana, ou pode ser feito durante a vida toda: retiramos o que não importa, para destapar o que sempre esteve em nós: a serenidade e a paz interior.

E podemos passar o tempo a olhar para fora e a julgar o que está mal, ou podemos olhar para dentro com curiosidade e perguntar se a camada para onde estamos a olhar ainda nos faz sentido ou é apenas algo que nos acompanhou, mas que já pode ser retirada.

E camada após camada, tornamo-nos mais serenos e mais completos. Mais em sintonia com o que nos faz sentido.

Afinal não é para ir de férias

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

 

Ir de férias nesta altura era o que estava programado. Pelo menos era o que estava marcado na agenda. Mas a Vida mostrou que não era bem assim. A garganta do filhote inflamou e as febres começaram.

De repente, toda a planificação destes dias mudou. A agenda passou muito rapidamente a ter marcadas as horas para as tomas dos medicamentos e os dias passaram a incluir as medições com o termómetro.

Não é a primeira vez que tal acontece, nem a segunda. Na verdade, é algo muito habitual desde que ele nasceu: são marcadas férias e, de repente, algo acontece e os dias são alterados.

Recordo das minhas frustrações quando ele era mais pequeno. Cumprir prazos e planificações era muito importante para mim. Mais do que isso, era prioritário.

Mas a Vida foi mostrando que o que estava na agenda não era assim tão importante, que o que estava programado por mim poderia esperar ou ser alterado.

E desta forma, aprendi que posso fazer uma de duas coisas: ficar frustrada porque o que achava que iria acontecer tinha mudado, ou adaptar-me.

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

Eventualmente, a inflamação desaparece e chega a altura de irmos para outras paragens. E o tempo de convalescença foi aproveitado para estarmos na companhia uns dos outros. Não é para isso que as férias servem também?

A atenção perturbadora

Tal como não existe a quantidade de sal ideal para cada prato, porque varia ao gosto de cada um, também não consigo identificar a quantidade ideal de atenção ao outro.

Falava no outro dia com uma pessoa que está regularmente a fazer sessões individuais e que tinha identificado que era muitas vezes demasiado atenciosa com os clientes no local de trabalho.

Ser atencioso para com os outros é algo importante para esta pessoa, mas a forma como o fazia transformava-se em algumas ocasiões em algo negligente.

Como podemos ser negligentes por ser demasiado atenciosos? Como é que passamos de um estado para o seu oposto?

Curiosamente, foi ao observar o comportamento de alguém num restaurante e na forma assertiva como essa pessoa dizia não às solicitações dos funcionários que a identificação foi feita.

O facto de sermos muito atenciosos com alguém, pode na realidade significar que não prestamos atenção a nós próprios, colocando o que achamos ser o bem-estar do outro (e não é necessariamente verdade, já que é o bem-estar de acordo com a nossa experiência e não a experiência do outro) à frente do nosso bem-estar e a qualquer custo.

Ou pode haver alguém que está à espera de ser atendido durante mais tempo que o habitual, porque a outra pessoa está a ter muita atenção.

Então, o que é ser atencioso q.b.?

Tal como não existe a quantidade de sal ideal para cada prato, porque varia ao gosto de cada um, também não consigo identificar a quantidade ideal de atenção ao outro.

Na realidade, a quantidade de atenção pode ser medida por questões interiores:

– O que me conduz a este comportamento?

– Será que necessito que o outro pense bem de mim?

-Ou será que necessito de ser atenciosa porque não quero perder a atenção do outro?

Ser atencioso porque me faz sentido, é algo que me deixa em paz, mas ser atenciosa porque quero algo do outro, é algo que me pode deixar descontente quando não tenho a troca que pretendo.

Sim, ser muito atencioso pode ser perturbador.

À espera que aconteça

Continuamos a esperar que algo aconteça, que altere a sensação atual, que alivie a pressão. Desejamos a mudança, mas sem a necessidade de alterar os comportamentos que a promovem, tal como desejamos ganhar uma lotaria pela qual não apostámos.

À espera que aconteça alguma coisa.

O quê? Por vezes muitas coisas. Outras vezes, nem sabemos.

Apenas esperamos que a Vida desenrole alguma coisa, para nos sentirmos melhor do que estamos a sentir no momento.

Como se algo no futuro fosse aliviar o desconforto presente. Como se estivesse lá à frente a solução das sensações presentes.

Esperamos ter mais dinheiro, um melhor relacionamento, o emprego desejado, uma saúde melhor…qualquer coisa de diferente do que existe.

Continuamos a esperar que algo aconteça, que altere a sensação atual, que alivie a pressão. Desejamos a mudança, mas sem a necessidade de alterar os comportamentos que a promovem, tal como desejamos ganhar uma lotaria pela qual não apostámos.

E o que pensamos sobre o que está a acontecer? O que pensamos sobre o que existe para nós naquele instante?

Será que prestamos atenção a toda a abundância que nos rodeia? Pelo ar que respiramos, por mais um dia disponível, pela presença dos que nos acompanham, pela capacidade de rir e de chorar?

E se eu mudasse o comportamento e prestasse atenção ao aqui e agora, ao que está a acontecer no momento, será que continuaria à espera de acontecer alguma coisa? Ou será que o desconforto iria dar lugar ao fascínio por tanta coisa a acontecer, pela simplicidade que nos acompanha.

Será que preciso mesmo de esperar, ou será que está acontecer neste momento?