Arquivo mensal: Agosto 2016

Eu sou agradável, não é verdade?

Será que preciso de vivenciar o prazer das coisas que gosto e da minha própria companhia através do prazer sentido pelo outro?

Pela minha experiência, passamos muito tempo a tentar agradar a todos ao nosso redor, tal como diz a expressão: tentando agradar a gregos e a troianos.

Desejamos que os outros validem as estórias que contamos acerca de nós e daquilo que consideramos ser nosso.

“Gostas da minha roupa nova?” “Gostas do novo filme do realizador X?” “O almoço que fiz está saboroso, não está?”

E se a resposta for negativa, como nos sentimos?

Quais os pensamentos habituais que surgem quando o outro não gosta da roupa, faz uma crítica, não quer ir ver o filme ou acha que o almoço não é nada de especial?

O que é que penso de mim quando o outro não diz que gosta do que desejo que goste? Será que fico indiferente ou, por outro lado, tento convencer o outro a gostar de mim e do que considero meu?

E será que preciso que o outro goste de mim da forma como eu quero e que goste das coisas que eu também gosto?

Será que preciso de vivenciar o prazer das coisas que gosto e da minha própria companhia através do prazer sentido pelo outro?

Ou será que a experiência e as emoções são sentidas por mim, independentemente do que o outro diz ou sente?

Será que posso ser eu o grego e o troiano a quem eu tenho de questionar sobre o que está a acontecer, tornando-me desta forma uma pessoa mais completa, numa maior sintonia.

E posso ter todas estas experiências também com o outro, sem a necessidade dos mesmos gostos ou opiniões. Sem a necessidade de vender ideias e emoções ao outro. Sem a necessidade de começar batalhas campais apenas porque existem diferentes opiniões sobre o assunto.

Posso começar a ser agradável para mim, independentemente do outro, não é verdade?

Ao Encontro do Momento Presente

Quando colocamos a resolução de uma determinada questão na mudança do outro, o que é que estamos a mostrar? Eu mudo se tu mudares.

 

Falava no outro dia com uma amiga sobre a necessidade que temos muitas vezes de nos validarem as nossas estórias e que os que estão à nossa volta nos digam que temos razão.

Irritamo-nos muitas vezes com as pessoas que não nos dizem que temos razão, que o caminho não é por ali, e achamos que os que estão do nosso lado são aqueles que dizem que o que acreditamos é verdade e que nos ajudam a alimentar as nossas estórias.

Lembrei de uma pessoa que fez uma sessão há uns tempos. Estava a passar por uma questão de saúde e não sabia lidar com as pessoas à sua volta. Achava que aquelas pessoas tinham muito boa vontade, mas que não a estavam a ajudar quando queriam que ela fizesse terapias com as quais ela não se identificava.

O problema, de acordo com o que contava, era quando dizia que não queria mais e as pessoas continuavam a insistir.

Coloquei uma questão sobre qual seria a melhor forma de lidar com a situação: ficar em paz com as atitudes das pessoas ou afastar-se para se sentir menos pressionada.

De acordo com esta pessoa, havia uma terceira hipótese: as pessoas poderiam mudar de comportamento. E depois de analisarmos esta questão, continuava a insistir: as pessoas deveriam mudar o seu comportamento.

Sim, é verdade, as pessoas poderiam mudar os comportamentos, mas será que mudam?

Quando colocamos a resolução de uma determinada questão na mudança do outro, o que é que estamos a mostrar? Eu mudo se tu mudares.

E se o outro não muda, e passamos o tempo a tentar que haja essa alteração, não estaremos a viver algo que não existe no momento?

Não será mais simples olhar para o que tenho à minha frente no momento presente e tentar perceber o que posso fazer, colocando a tónica em mim, em tudo o que sinto sobre o que se passa, sentindo o que existe para sentir em mim?

E não é fácil muitas vezes fazer esse processo, ficar presente para mim e para o momento presente, mas se quiser desligar o piloto automático, é tudo o que posso fazer para tentar perceber melhor o que se passa no meu interior.

E, eventualmente, o outro pode identificar a mudança em mim, e fazer também o seu processo.

Porque o momento presente, é tudo o que existe.

O amor não vence barreiras

E é esta vulnerabilidade que nos torna mais verdadeiros e completos, connosco e com o outro, derrubando os impedimentos que afinal não existiam lá fora, mas sim dentro de nós.

A experiência diz-me que o amor não vence barreiras. Acreditei no oposto durante muito tempo, até parar para pensar sobre esta realidade. Até a vida me mostrar que o amor apenas por si só não é suficiente para ultrapassar barreiras existentes.

A frustração sentida foi intensa quando deixei de acreditar nesta máxima de que um grande amor vencia qualquer barreira. Mas também me permitiu olhar para o que se passava ao redor de outra maneira.

Percebi que o que pode eventualmente vencer barreiras é a capacidade de sermos vulneráveis perante nós e perante os outros, é olhar para os nossos medos e inseguranças, as vergonhas e as culpas e deixar que tudo aquilo que habitualmente tentamos esconder venha ao de cima, que seja visto e questionado, até restar apenas um sentimento de serenidade perante o que tentámos esconder durante tanto tempo.

Eventualmente, mostramos ao outro que também pode olhar para os seus medos e inseguranças, para as sensações de vergonha e de culpa e mostramos que é na vulnerabilidade que ultrapassamos o que parece impossível de ultrapassar, que somos semelhantes nessas emoções e que apenas são tóxicas até ao momento em que as deixamos de esconder, para passarem a ser partes serenas de nós.

E é esta vulnerabilidade que nos torna mais verdadeiros e completos, connosco e com o outro, derrubando os impedimentos que afinal não existiam lá fora, mas sim dentro de nós.

O amor por si só pode não vencer barreiras, mas juntamente com a vulnerabilidade pode ser o agente transformador de tudo o que se encontra ao redor.

As crenças extraordinárias

Contudo, todas as crenças residem em nós, até as descobrirmos, até ficarmos conscientes do quanto movimentam a nossa vida e até percebermos que são pensamentos e que não temos necessariamente de acreditar naquilo que surge na nossa mente.

 

Aprendemos o funcionamento do que nos rodeia nos primeiros anos de vida. Isto inclui a aprendizagem emocional.

Acreditamos saber o funcionamento das coisas de uma forma muito mais subtil do que possamos pensar e as crenças emocionais movimentam a vida sem darmos conta disso.

Uma dessas crenças que considerei ser muito importante para mim foi “eu não sou suficientemente boa”. À medida que trabalhei comigo, fui percebendo que o facto de ter esta crença enraizada no inconsciente condicionava o que se encontrava à minha volta, os comportamentos dos outros, os desfechos das situações e, em última análise, as minhas reações que originavam tudo o resto.

Quando comecei a ficar mais em paz com este acreditar inconsciente, desligando-me destes pensamentos, iniciou-se uma mudança que deu origem a uma maior serenidade.

Contudo, todas as crenças residem em nós, até as descobrirmos, até ficarmos conscientes do quanto movimentam a nossa vida e até percebermos que são pensamentos e que não temos necessariamente de acreditar naquilo que surge na nossa mente.

E há uns tempos veio à superfície uma crença muito mais subtil para mim, que movimentou muitas situações e comportamentos, sem que eu desse conta, até essa altura. Foi extraordinário ter a perceção como essa crença me tocava: ter o pensamento “eu não sou importante” e acreditar que era verdade, foi a origem de muita mágoa e muita tristeza ao longo de tanto tempo.

Perceber que era uma crença subtilmente enraizada e dar conta desse facto foi surpreendente, tal como foi surpreendente perceber que não acreditava na realidade quando alguém me dizia que iria sentir a minha falta ou que aquilo que eu estava a fazer era realmente necessário.

E também prestar atenção às atitudes que tinha como reação, onde mostrava ao outro que estava à minha frente que não era importante para mim, já que eu traduzia o que estava a acontecer através desta crença e mostrava ao outro que não era importante para mim já que eu não era importante para ele, foi doloroso mas também muito libertador.

Existem muitas outras crenças que nos movem ao longo na vida, não pela sua existência, mas porque acreditamos que são verdade, desde “eu não sou merecedor” até “a vida é difícil”, a lista é grande e algumas são mais fáceis de identificar do que outras. Depende da experiência de cada um.

Foi um sonho angustiante, que me deixou desconfortável e que me fez parar para tentar perceber porque me sentia tão mal. E no momento em que surgiu a consciência desta crença, acordei um bocadinho mais para a serenidade, ao constatar que o outro mostra-me o que penso de mim, lá bem no fundo e que, no momento em que deixo de acreditar nestes pensamentos, a vida flui numa leveza muito mais presente.

O silêncio despertador

 

Mas é no silêncio que vamos ao encontro dos pensamentos que doem e incomodam e que os podemos questionar.

 

Fugimos muitas vezes do silêncio, optando por situações e coisas que nos distraem do potencial estado de silêncio e que nos pode conduzir ao confronto de pensamentos ameaçadores.

Preferimos as distrações das saídas com os amigos, da televisão ou das redes sociais, para não enfrentar o que consideramos ser o mais assustador que existe em nós, para não enfrentar o que escondemos nas caixas do sótão ou da cave, porque consideramos estas descobertas demasiado assustadoras.

Mas é no silêncio que vamos ao encontro dos pensamentos que doem e incomodam e que os podemos questionar.

E podemos eventualmente encontrar uma nova forma de olhar para as coleções de situações, das caixas e dos caixotes e perceber que, afinal, já não são tão assustadoras.

Esse novo olhar poderá inclusivamente mostrar-nos o que tirámos de útil dessas situações, e ficar em paz daí para diante. Em paz com as situações e com os outros.

Sim, o silêncio pode ser assustador, mas também pode conter a serenidade que gostaria de encontrar e não sei como.