Limpar o nevoeiro

De início, é como olhar através de uma janela muito suja e nem sabemos bem por onde começar. 

 

Acontece por vezes com pessoas que iniciam um trabalho de desligar o estado de piloto automático o não saberem o que as está a incomodar.

Quando surge a questão ” afinal o que gostaria de resolver”, a resposta é muitas vezes “não sei”.

Sim, existe um desconforto, uma insatisfação, uma raiva ou uma tristeza, mas não sabemos exatamente a origem. Apenas sabemos que não queremos sentir essa sensação e procuramos formas de camuflar e de fugir.

Como se esta sensação se encontrasse lá fora e, ao fazer um processo de fuga, conseguíssemos encontrar a boa disposição que achamos nos vai transformar.

Acontece que esta sensação é interior e, à medida que vamos fugindo cada vez mais, torna-se cada vez maior, conduzindo-nos muitas vezes a uma de duas situações: ou aumentamos as doses do que quer que seja que estejamos a fazer para aumentar a fuga, ou o processo torna-se insustentável e buscamos algo que nos ajude.

Muitas das pessoas que já iniciaram este trabalho, tinham chegado ao ponto em que sentem que estão por tudo e dispostas a fazer qualquer coisa para deixar o desconforto.

Costumo brincar com isso e dizer “bem-haja pelo desconforto. Por ser o motor que nos leva a olhar para o que nos rodeia de maneira diferente.”

E é neste estado de nevoeiro mental que iniciamos muitas vezes um processo de olhar para dentro. É neste estado que estamos disponíveis para o momento presente.

De início, é como olhar através de uma janela muito suja e nem sabemos bem por onde começar. 

Mas, aos poucos, a janela começa a ter espaços mais luminosos, por onde se consegue espreitar e eventualmente perceber que o que nos incomodava afinal já não faz sentido.

E, bocado a bocado, os espaços luminosos são cada vez maiores. O nevoeiro dispersa-se e conseguimos ter uma ideia mais concreta do que nos rodeia, das histórias que contamos sobre o que está a acontecer no momento.

E tornamo-nos muito mais observadores do momento presente, em vez de reativos.

E o momento presente, é tudo aquilo que temos.

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