Arquivo mensal: Novembro 2016

O prazer de dar

Dar significa na realidade receber. Apenas não nos damos conta disso às vezes.

 

É pelo puro prazer egoísta que gosto de dar.

Pelas emoções que sinto ao ver o prazer do outro, seja por um abraço, por um sorriso ou por uma prenda material.

Sim, quem dá é egoísta.

Dá pelo prazer de ver o encanto no outro. O prazer de ver os olhos a brilhar e o sorriso no rosto.

Dá para receber a sensação de gratidão, de alegria, para receber o entusiasmo e satisfação.

Por vezes, surgem pensamentos sobre pessoas que parecem apenas gostar de receber, e é como se elas ainda não tivessem aprendido o prazer do egoísmo do dar algo ao outro.

E surgem muitas vezes situações em que cobramos ao outro de volta o facto de lhe termos feito ou dado algo, sem nos apercebermos que recebemos naquele instante em que transferimos alguma coisa.

E se o outro nos der também algo em troca, estará a receber nesse momento o prazer da nossa emoção, que surge quando nos permitimos receber.

Dar significa na realidade receber. Apenas não nos damos conta disso às vezes.

Deixar Ir

Na realidade, posso parar para ouvir o que a Vida me está a dizer naquele momento sobre aquela experiência e sobre o que está a acontecer.

 

Ouvimos por vezes dizer que precisamos de colocar atenção e energia no que fazemos para conseguirmos resultados. Seja no que for. Pode ser uma relação ou uma situação profissional, é importante colocar energia e atenção.

E o que será isto de dar atenção a uma determinada situação?

Como é que conseguimos estar presentes para algo, se muitas vezes não conseguimos estar presentes para nós?

E onde acaba a atenção e se inicia o apego e a necessidade de mudar o que está a acontecer?

Qual o montante de energia e atenção a ser dado a uma determinada situação? E de que forma?

E quando o que pretendemos não se concretiza como gostaríamos ou não se concretiza de todo: será que deverei insistir para ter resultados e até atingir o que quero?

Muitas vezes culpamo-nos por achar que não nos dedicamos o suficiente a uma determinada situação e que por isso não temos resultados.

Ou achamos que a Vida nos está a castigar de alguma forma, e sentimo-nos uma vez mais culpados porque devemos ser os responsáveis por não chegar onde queremos.

Ou olhamos à volta e achamos que o outro consegue obter resultados sem fazer grande coisa e eu, que estou a dedicar-me tanto, não sou reconhecido pela Vida e que a Vida é injusta.

Mas será verdade? Será que a realização do que gostaria está nas minhas mãos?

Sim, poderá ser útil ter dedicação e disciplina ao invés de não prestar atenção ao que é para fazer, mas será que o posso fazer de uma maneira desligada?

Será que posso ter a dedicação e a disciplina e, ao mesmo tempo, deixar ir, deixar que a Vida faça o que é para fazer?

Deixar fluir o que tiver de acontecer.

E quando não acontece de todo como eu gostaria?

Posso olhar e tentar perceber de que forma este processo está a ser uma aprendizagem para chegar até mim, tentando perceber o que me incomoda e quais os pensamentos que surgem quando acredito que a Vida é injusta ou que não sou merecedor.

Na realidade, posso parar para ouvir o que a Vida me está a dizer naquele momento sobre aquela experiência e sobre o que está a acontecer.

Eventualmente, posso acreditar na Vida que acontece naquele momento e poderá ser que a Vida passe também a acreditar em mim.

Fazer o que é para fazer e Deixar Ir. A Vida sabe sempre o que é melhor para cada um de nós. A cada instante.

Tenho saudades do que sou quando estou contigo

Na realidade, quando temos saudades de alguém, sentimos a falta do que essa pessoa nos traz de nós, do que sentimos na sua presença e das experiências que vivemos.

 

Somos feitos de experiências e analisamos o que acontece à nossa volta através das vivências passadas.

Os outros mostram-me partes de mim através de sensações e experiências, sem que eu tenha muitas vezes a consciência de que sou eu que estou a sentir e a vivenciar aquele momento, de que essa experiência se dá em mim e não lá fora.

Na realidade, quando temos saudades de alguém, sentimos a falta do que essa pessoa nos traz de nós, do que sentimos na sua presença e das experiências que vivemos.

E se gostamos da experiência que os sentidos e as emoções nos revelam, queremos vivenciar mais dessa experiência em nós, queremos repetir sensações prazerosas e achamos que vivemos essas sensações por causa do outro, esquecendo-nos que somos nós que as sentimos. Esta experiência é nossa, e o outro vive também a sua própria experiência de acordo com a sua vivência passada.

Mas o que acontece quando as sensações não nos agradam? Achamos muitas vezes que é o outro que está mal, que tem má onda, que nos rouba energia. Mas será que isto é verdade?

Nesta altura, estou a avaliar o outro com base no que sei de mim. Como é que posso aplicar essa mesma avaliação ao outro, que tem bases diferentes, formadas por experiências diferentes?

É como se fizesse equivalências entre medidas, é como dizer que um metro é igual a um litro, sem mais nada, sem qualquer conversão.

Mas o que aconteceria se passasse a viver tendo em conta que as minhas sensações têm por base a minha experiência, e que para o outro pode ser diferente?

Será que continuaria a estar em modo julgamento, quando o outro não reage de acordo com as minhas expectativas? Ou será que poderia parar para tentar perceber porque fico incomodado quando o outro não está presente conforme gostaria?

Será que poderia simplificar a forma como comunico com o outro, sem avaliar atitudes ou comportamentos, tendo em conta o facto de que sou eu que sinto daquela forma, sou eu que estou a vivenciar aquela experiência, e que o outro pode estar a sentir algo completamente diferente do que estou a julgar?

Eventualmente, o modo julgamento poderia dar lugar ao modo compaixão, por mim, pelo Outro e pelo Eu anterior a ter esta consciência.

Tenho saudades do que sou quando estou contigo, e sim, também tenho saudades da tua presença em mim!

 

A Escuridão que Ilumina

Apenas não sabíamos que somos todos completos, que todas as características são úteis em determinadas situações, e que sou igual ao Outro.

 

Na minha experiência, temos tendência a querer ser sempre luminosos, que é como quem diz, fazermos sempre o bem, o que é certo e bonito, desejando chegar a um dia em que vivemos felizes, em paz e em serenidade para todo o sempre.

Mas, durante este processo de busca da iluminação, colocamos de parte o que nos incomoda e o que é considerado de obscuro, deixando determinadas características de parte, escondendo dos outros e de nós próprios o que perturba, e acusando muitas vezes o Outro de ser o que queremos esconder.

Curiosamente, o nome dado pela mentora Debbie Ford  a esta ferramenta de educação emocional com a qual trabalho, foi exatamente de Sombra Humana.

Consiste num processo gradual de olharmos para o que consideramos mais escuro em nós e, durante esse processo, resgatarmos o que consideramos mau, errado e feio.

É durante este resgate que nos tornamos completos, que tomamos conta da relatividade das histórias que contámos até então, e que afinal de contas são apenas histórias e que já não as estamos a viver neste momento. Elas apenas existiram na nossa mente.

E é a olhar para a escuridão que nos atormenta que ficamos mais iluminados. Não porque vamos viver felizes para todo o sempre, mas porque percebemos que não existe nada de errado, de feio ou de mau connosco.

Ou com o Outro.

Nem nunca houve.

Apenas não sabíamos que somos todos completos, que todas as características são úteis em determinadas situações, e que sou igual ao Outro.

E provavelmente, este processo de nos tornarmos completos acompanha-nos até passarmos para o outro lado. Vamos descobrindo de vez em quando mais uma característica ou situação com a qual vamos ficando mais em paz.

A Escuridão Ilumina e na minha experiência, ilumina muito.

A vida acontece a cada momento

Posso dar início a um processo de questionamento, onde fico mais presente para mim e para o que está a acontecer.

 

A vida acabou de acontecer mesmo agora. E aqui está ela, neste momento. E eventualmente estará ali à frente mais daqui a pouco. Mas será que tenho consciência disso? Ou será que passo a maior parte do tempo com preocupações futuras e com medos vindos do passado?

Será que estou presente para o que está a acontecer neste momento? E pode ser algo agradável e pode ser algo que me incomoda. Mas aquilo é tudo o que existe para mim naquele instante. E a questão que surge na mente pode ser, o que é que posso fazer com isto?

Se a pessoa que gostaria que estivesse ali está ausente, será que posso aproveitar a companhia dos que estão presentes? Será que posso estar presente para mim?

E se a resposta  for negativa, posso sempre questionar o porquê de querer estar a lamentar a ausência de alguém, quando existe tudo o resto ao meu dispor.

Qual o pensamento que me leva ao sofrimento de querer o que não existe neste momento e rejeitar o restante. Em especial, que pensamento me conduz à rejeição de mim.

Será que considero que não sou suficiente para mim, e que necessito do outro para preencher o que acredito não ter?

Será que preciso que o outro me dê o que acredito não me conseguir dar?

E será que já pensei alguma vez sobre o assunto? Ou limito-me a reagir aos pensamentos que surgem, quando não tenho o que acredito estar a fazer-me falta?

Caso considere útil, posso sempre parar para pensar sobre os pensamentos que surgem na mente. De que forma estes pensamentos alteram a minha respiração, as sensações no corpo, e de que forma é que eu reajo ao que estou a sentir e a pensar.

Posso dar início a um processo de questionamento, onde fico mais presente para mim e para o que está a acontecer.

E não tem de ser agradável. Mas também não preciso de amuar ou fazer uma birra.

Posso só ficar quieto e em silêncio, e começar a prestar atenção aos pensamentos que surgem.

Na realidade, posso ficar presente para a vida que acontece naquele momento.

E nada indica que é um processo fácil de se iniciar. Mas se nunca o fizer, não saberei qual é a sensação de apenas estar presente no momento, sem mais histórias e sem dramas a acontecer.