Arquivo mensal: Dezembro 2016

A importância de não ser importante

Qual a diferença entre ouvirmos o que o interior nos diz para fazermos e alimentar o Ego?

Muitas vezes lemos ou ouvimos algo sobre a necessidade de termos importância e de sermos importantes. Mas o que é isto de ser importante?

Em trabalhos de grupo de educação emocional já aconteceu alguém afirmar que decidiu a partir de uma certa altura da vida prestar atenção a si próprio, sem ter em conta as pessoas que o rodeiam. Que já deu muito à Vida e que agora estava a viver para si, porque tinha chegado a altura, e que os outros ficassem por sua conta.

Qual a diferença entre ouvirmos o que o interior nos diz para fazermos e alimentar o Ego?

Um destes dias saí numa estação de comboio bastante movimentada àquela hora e olhei para o fluxo de pessoas que saíam do comboio e se dirigiam para outros locais.

Eram muitas pessoas com o mesmo movimento e dei conta dos pensamentos que surgiam: parecemos glóbulos vermelhos a transportar oxigénio e nutrientes para as células!

E um glóbulo vermelho não questiona se é mais importante que o do lado porque transporta algo mais importante que o outro. Apenas faz o movimento que é para fazer, tranquilo na sua tarefa.

E o que acontece ao nosso corpo se uma célula muda e se transforma? Por vezes, surge algo de aflitivo e stressante.

Tal como nós quando fazemos uma alimentação do Ego de forma desmesurada e sem parar para ouvir o que pensamos. Como quando surgem pensamentos do tipo: “Eu quero ser importante” ou “Eu sou importante a partir de agora.”

Talvez eu seja importante e ao mesmo não sou importante.

Sou importante porque estou aqui neste momento a ser quem sou, e por isso importo.

E não sou importante porque a Vida sabe melhor o que fazer comigo e, se me deixar ir, sem resistência no que está a acontecer, o fluxo levar-me-á a cada momento para fazer o que é para fazer.

E por vezes sinto que que não faz sentido o que os outros querem que eu faça e afasto-me, mantendo a individualidade. E mantenho uma posição por sentir que é aquela que faz sentido.

E outras vezes, sinto que é para estar em grupo, não dando importância aos pensamentos que me levariam a ter atitudes muito individualistas e que iriam prejudicar o todo.

E a única atitude que me parece ser importante, é aquela que me faz parar para ouvir cá dentro o que faz sentido naquele momento. E a atitude que surgir, é a melhor que sei fazer no instante.

Algumas vezes sou o Eu e outras sou uma espécie de glóbulo vermelho, a caminhar para fazer o que é para fazer: alimentar alguma célula que necessita de oxigénio ou de nutrientes. Com todo o prazer de o fazer.

Onde estou eu? Estou mesmo aqui!

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

 

A partir de uma certa altura da vida, comecei a ter muitas dúvidas sobre o que andava a fazer. Será que é correto fazer isto ou ir por aqui? E será que se fizer isto, será que vou chegar onde pretendo?

As dúvidas deram origem a muitas crises de meia idade, independentemente da idade física onde me encontrava. E também deram origem a muita ansiedade e a muito stress. E a muita necessidade de fazer as coisas bem, de forma perfeita, como se o que estivesse a ser feito não fosse o melhor que soubesse fazer, como se eu não estivesse no momento certo ou devesse estar noutro lado qualquer.

Na realidade, eu não tinha consciência de onde estava e que esse momento era perfeito, fosse um momento que eu rejeitava ou um momento de prazer.

Mas sem esses processos todos de ansiedade e de questões que me faziam permanecer “lá fora”, eu não teria chegado aos processos mais serenos de estar “cá dentro”.

E ao longo destes processos de busca de onde é que raio é que estou? e o que raio é que estou aqui a fazer? fui ganhando (e continuo a ganhar) uma forma diferente de estar.

Ao ponto de, por exemplo, ir caminhar ou correr e sentir muito mais o que se passa aqui dentro do que se passa lá fora.

E gosto de fazer todo esse movimento físico em locais que gosto de olhar para o que me rodeia, mas também estou nesse momento a prestar atenção à respiração e ao movimento dos pés e ao cansaço que vai surgindo, em vez de prestar atenção ao final do processo e à necessidade de chegar ao fim.

Durante muito tempo fui encontrando desculpas para não fazer coisas que gostava e que me faziam sentir bem, como sair de manhã e ir fazer uma caminhada, por exemplo.

Até que algo aconteceu aos boicotes de “estou cansada” ou “agora está frio” ou “agora não tenho companhia” já que foram substituídos por pensamentos do tipo “olha, afinal até acordei cedo e vou sair” ou “o tempo até ajuda, pois não está a chover neste momento” ou “e se chover durante o processo logo se vê”.

O que estava a acontecer lá fora deixou de ter tanta importância sobre o que está a acontecer cá dentro. E, naturalmente, o que sabe bem cá dentro foi ficando mais transparente e foi acontecendo mais vezes.

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

E o lá à frente deixou de ter tanta importância, porque eu estou mesmo aqui. No sítio exato onde é para estar.

Eu tenho a certeza que não quero isto!

Será que eu tenho a certeza de que não quero isto, se é o que me vai conduzir ao meu desligar do piloto automático e a ficar em paz?

 

Passamos muito tempo mental a selecionar o que não gostamos e achamos que não queremos. E temos muitas certezas absolutas sobre o que é melhor para nós e para os outros.

E durante este processo mental de seleção automática, escolhemos o que queremos vivenciar e não queremos viver.

Curiosamente, muitas vezes a Vida mostra-nos que a situação é diferente: o que não quero vivenciar vai-se repetindo ciclicamente nos nossos dias, seja com as mesmas pessoas, seja com pessoas diferentes.

E surge eventualmente uma questão: se isto não é para vivenciar, então porque é que se repete constantemente? Porque é que tenho relacionamentos que acabam da mesma forma, porque é que sinto que as pessoas me traem, porque é que não consigo ter o suficiente para pagar as contas?

Será mesmo verdade que não quero o que está a acontecer?

Se a situação se repete, será vantajoso continuar a rejeitar essa mesma situação? E não é fácil olhar para os acontecimentos que nos magoam e nos mostram que falhamos, ou que não somos suficientemente bons, mas será que poderemos olhar para esses mesmos acontecimentos de uma outra forma?

Posso olhar para o que acontece de uma forma mais distante e ficar ali nessa mesma situação. Que histórias é que estou a contar e que me levam a rejeitar isto? Porque é que me sinto desconfortável com o que está a acontecer?

Quando é que foi a primeira vez que me senti assim?

E será que o desconforto que sinto é deste momento? Ou será que estou a sentir o mesmo que senti da primeira vez, e estou a repetir desde então, sem ter a noção do que se passa?

Será que estou em piloto automático, rejeitando o que acontece, quando a Vida insiste num olhar diferente para ficar em paz?

E se o que a Vida me quer dizer com esta repetição é apenas: “está tudo bem, vê o que se passa de uma outra perspetiva e torna-te o observador da situação”?

Será que eu tenho a certeza de que não quero isto, se é o que me vai conduzir ao meu desligar do piloto automático e a ficar em paz?

E posso sempre afastar-me do que acontece, sem que a situação se mantenha em repetição nos meus pensamentos. E quando isto acontece, eu tenho a certeza de que quero isto, pois é o que me mostra o caminho para o meu silêncio interior.

Eu ouço-te quando me ouço

Na minha experiência, eu começo a ouvir o outro quando paro para me ouvir a mim primeiro e quando deixo de ter necessidade de justificar e de julgar.

Eu preciso que o outro me oiça, as pessoas não me compreendem ou ninguém me dá atenção são expressões comuns em todos nós.

Sem contudo pensarmos na necessidade que temos do outro nos ouvir, de compreender ou de dar atenção.

Porque será que precisamos que o outro nos ouça, nos compreenda e nos dê atenção?

Será mesmo verdade que necessitamos de tudo isto?

Porque é que precisamos de fazer o outro chegar até à nossa experiência e de acordo com as nossas crenças?

Quando exigimos ao outro que nos ouça e nos dê atenção, será que prestámos atenção ao outro, ao que o outro quer, ao que o outro nos está a dizer?

Tu não me ouves!

Mas será que ouço o outro? Será que consigo olhar para o outro e ter a experiência de ouvir sem as barreiras do julgamento imediato e das exigências seguintes?

E melhor ainda: será que me ouço?

Será que sei o que estou a dizer e porquê?

Será que parei para ouvir os pensamentos e as emoções que estão na base da necessidade de atenção e na falta de atenção que dou ao outro?

Na minha experiência, eu começo a ouvir o outro quando paro para me ouvir a mim primeiro e quando deixo de ter necessidade de justificar e de julgar.

Ouço as conversas loucas e os pensamentos dramáticos que surgem e deixo-os ir. Fazem parte de mim, tal como uma banda sonora de um filme ou uma música ambiente.

Mas isso não significa que lhes tenha de dar muita atenção. Eles surgem, eu ouço-os e eles vão embora. E durante este processo, o que é importante para mim fica mais claro.

Será que é importante o que vou dizer ao outro? Será que o vou magoar? Será que vale a pena?

E o que é que o outro me está a tentar dizer?

Se não entendi, não será mais útil dizer isso mesmo e tentar ouvir o outro em silêncio, sem estar a construir uma resposta imediata em simultâneo?

Começar a ouvir os pensamentos que surgem na mente a cada instante, pode ser um processo difícil no início, mas poderá levar-me a um silêncio surpreendente, quando deixo de me apegar a pensamentos e apenas os deixo ir.

E talvez comece a ouvir o que o outro me está a dizer, em silêncio, ouvindo-me também a mim e, desta forma, comunico de forma muito mais simples e verdadeira, comigo e com o outro.