Onde estou eu? Estou mesmo aqui!

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

 

A partir de uma certa altura da vida, comecei a ter muitas dúvidas sobre o que andava a fazer. Será que é correto fazer isto ou ir por aqui? E será que se fizer isto, será que vou chegar onde pretendo?

As dúvidas deram origem a muitas crises de meia idade, independentemente da idade física onde me encontrava. E também deram origem a muita ansiedade e a muito stress. E a muita necessidade de fazer as coisas bem, de forma perfeita, como se o que estivesse a ser feito não fosse o melhor que soubesse fazer, como se eu não estivesse no momento certo ou devesse estar noutro lado qualquer.

Na realidade, eu não tinha consciência de onde estava e que esse momento era perfeito, fosse um momento que eu rejeitava ou um momento de prazer.

Mas sem esses processos todos de ansiedade e de questões que me faziam permanecer “lá fora”, eu não teria chegado aos processos mais serenos de estar “cá dentro”.

E ao longo destes processos de busca de onde é que raio é que estou? e o que raio é que estou aqui a fazer? fui ganhando (e continuo a ganhar) uma forma diferente de estar.

Ao ponto de, por exemplo, ir caminhar ou correr e sentir muito mais o que se passa aqui dentro do que se passa lá fora.

E gosto de fazer todo esse movimento físico em locais que gosto de olhar para o que me rodeia, mas também estou nesse momento a prestar atenção à respiração e ao movimento dos pés e ao cansaço que vai surgindo, em vez de prestar atenção ao final do processo e à necessidade de chegar ao fim.

Durante muito tempo fui encontrando desculpas para não fazer coisas que gostava e que me faziam sentir bem, como sair de manhã e ir fazer uma caminhada, por exemplo.

Até que algo aconteceu aos boicotes de “estou cansada” ou “agora está frio” ou “agora não tenho companhia” já que foram substituídos por pensamentos do tipo “olha, afinal até acordei cedo e vou sair” ou “o tempo até ajuda, pois não está a chover neste momento” ou “e se chover durante o processo logo se vê”.

O que estava a acontecer lá fora deixou de ter tanta importância sobre o que está a acontecer cá dentro. E, naturalmente, o que sabe bem cá dentro foi ficando mais transparente e foi acontecendo mais vezes.

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

E o lá à frente deixou de ter tanta importância, porque eu estou mesmo aqui. No sítio exato onde é para estar.

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