Arquivo mensal: Fevereiro 2017

A procura

“se não acontecer desta forma, surgirá o que a Vida de melhor tiver para mim”

 

Eu procuro, busco, peço, faço pedidos para que a Vida me dê aquela situação ou aquela relação ou aquilo que me iria mesmo fazer feliz.

“Era mesmo isto que me iria fazer sentir melhor. Sem dúvida.”

Como dizia o filhote quando era pequeno “Eu quero agora, já!”

E reclamo, grito, esperneio, quando isso não acontece neste momento.

E curiosamente, não paro para pensar porque estou a colocar a minha felicidade neste acontecimento.

Não a felicidade dos contos de fadas, onde vivemos dessa forma para sempre, mas a felicidade de saborear o que está a acontecer.

Em sessões individuais, cruzo-me por vezes com situações onde a insatisfação está muito presente. Quero sempre mais coisas, sem saber muito bem porque quero. Apenas sei que quero essa situação.

Vamos estabelecendo metas e objetivos, que nos permitem ficar em “modo busca”, muitas vezes para poder fugir da dor dos pensamentos que nos perturbam. E dizemos cá para nós “quando esta situação acontecer é que é”.

E o que acontece na realidade quando o que desejei durante algum tempo se concretiza? Será que a tal felicidade estaciona na minha vida para todo o sempre? Ou será que dou início a um novo ciclo de desejos e de buscas?

Será que preciso mesmo do estado “feliz para todo o sempre”?

E se o que procuro estiver aqui mesmo, com todas as dores, e dramas, e situações que incomodam?

O que aconteceria se parasse neste momento e deixasse de procurar, e apenas olhasse para os pensamentos deste momento, para tudo o que tenho agora?

E posso sempre estabelecer o próximo limite e a próxima meta, com o desapego que surge da certeza: “se não acontecer desta forma, surgirá o que a Vida de melhor tiver para mim”.

Afinal de contas, o que acontece no momento, por muito doloroso que possa parecer, pode ser o motor que me conduz de volta a mim, tornando-me mais completo e consciente e sem necessidade de procurar lá fora o que já está aqui dentro.

Uma boa incompetente

E a Vida flui em cada um de nós, sem a necessidade de perguntar se tenho competência para o fazer.

 

Ser competente foi durante muito tempo uma necessidade para mim.

Mostrar que era competente e que sabia resolver os problemas, encontrar as soluções ou chegar àquela conclusão era fundamental.

Havia uma grande necessidade, um grande dispêndio de energia e de atenção para mostrar toda a competência que considerava necessária.

Contudo, esta competência era demonstrada nas áreas que considerava zonas de conforto, onde me sentia suficientemente à vontade para ter resultados prováveis.

E havia aquelas áreas da vida onde nem sequer tentava mostrar que era muito competente, já que não sabia como fazê-lo e, como tal, achava não valer a pena ingressar por esses caminhos, já que considerava não conseguir qualquer resultado satisfatório.

Curiosamente, a partir de uma certa altura, por mais que tentasse ser uma pessoa muito competente nas áreas de conforto, havia sempre algo a falhar, alguém a apontar o dedo e a mostrar que nada estava feito conforme desejava.

E por outro lado, a Vida ia-me puxando para as áreas onde o medo me boicotava e nas quais eu não fazia ideia de como agir, mostrando-me que não tinha necessidade de saber o que fazer.

Estas alterações tiveram como vantagem fazer-me parar e questionar porque é que ser competente era tão importante para mim. O que é que andava a tentar esconder de mim e dos outros e porque é que fugia de situações com as quais considerava não conseguir lidar.

Aos poucos, as sensações perante as diversas situações foram mudando. Fui tantas vezes chamada de incompetente, apesar de tentar sempre fazer tudo bem, que questionei quais os benefícios de todo este processo.

E descobri que o maior benefício residia na aprendizagem e em perceber que fazia sempre o melhor que conseguia a cada momento.

Por último, descobri que em cada situação existe uma lição e que, por vezes, é onde nos sentimos mais desconfortáveis que aumentamos a consciência de nós mesmos.

Neste momento, abordo cada situação questionando onde é que a minha experiência passada pode ser útil. Onde é que os ensinamentos passados podem ajudar a situação presente.

Eventualmente, a solução necessária surge, e não vem necessariamente através de mim.

E a Vida flui em cada um de nós, sem a necessidade de perguntar se tenho competência para o fazer.

Assim.

Simplesmente.

 

 

Relacionar-me comigo

E quanto mais eu quero esconder, ocultar, encobrir, mais os relacionamentos mostram tudo o que não desejo ver.

Muitos vezes são os relacionamentos que nos levam a um maior trabalho de conhecimento interior.

E muitas vezes, não são aqueles relacionamentos que nos envolvem, nos dão tranquilidade que conduzem a este processo, mas sim aqueles que nos incomodam, que nos fazem gritar e que nos levam ao choro desalmado.

São estes relacionamentos que perguntam uma e outra vez como é que eu me relaciono comigo. Como é que mostro ao outro como é que eu me trato e como o outro me deve tratar?

Como alguém dizia no outro dia, as situações são complexas.

Se fossem simples, haveria um ou dois livros escritos, que poderíamos seguir e funcionar todos da mesma forma e viveríamos felizes para todo o sempre. Mas não é assim que acontece.

Aquele relacionamento que me incomoda está ali para que eu possa seguir para dentro de mim, se assim o entender, e se o momento de olhar para as feridas do passado tiver chegado.

Não como uma poção mágica que posso tomar e sentir-me bem logo de seguida, mas como um novelo que vou desenrolando aos poucos, desatando os nós e ligando as pontas soltas.

E durante este processo, surgem as vergonhas, as culpas e os medos do passado.

Surgem as aprendizagens emocionais que se acumularam e que me mostravam tudo aquilo que não queria ver em mim.

E quanto mais eu quero esconder, ocultar, encobrir, mais os relacionamentos mostram tudo o que não desejo ver.

Posso continuar a camuflar ou posso olhar aos poucos para a situação, para o desconforto e colocar as questões “Como é que eu me relaciono comigo?” ou “O que é que penso de mim?”

Porque o outro irá mostrar-me o que não quero ver.

E se, aos poucos, for desenrolando o novelo, até não restar nada para esconder?

Ficará eventualmente a essência do Ser completo que sou.

Possivelmente o outro irá mostrar-me que nada de mal existe comigo e que os pensamentos que surgiam e que podem surgir são apenas turistas e que não pretendem ficar para todo o sempre.

E é quando eu sinto um bem-haja por cada situação incómoda que encontro o equilíbrio nas relações, que apenas refletem a minha relação comigo.

Dispersar ou Tonificar?

Quais as histórias que são contadas na mente quando o que tenho ou faço no momento não é suficiente? E onde está a sua origem?

Para quem está familiarizado com a base da Medicina Chinesa, tem provavelmente a noção dos princípios de “dispersar” ou “tonificar”.

Na realidade, o que é importante ter em conta passa por concentrar energia ou retirar energia que esteja estagnada num determinado ponto ou área.

Há algum tempo atrás, uma querida amiga da área da Medicina Chinesa pediu para fazer uma sessão de educação emocional, por forma a ter outros olhos a analisar uma questão e um eventualmente um novo olhar sobre isso.

E uma das dúvidas existentes recaiu sobre uma situação interessante: “Eu deveria fazer mais pelos meus pacientes.”

Perante esta dúvida, surgiu um diálogo engraçado:

– “Mas então o que é que é feito nos tratamentos?”

– “Tonifico ou disperso energia”.

– “E resulta?”

– “Sim.”

– “Então para que precisas de fazer mais alguma coisa?”

Risos surgiram no gabinete. Muitos risos. De ambas.

Passamos tanto tempo preocupados com o que precisamos de fazer, achando que não é suficiente e que temos de dar mais e melhor, que não nos apercebemos que fazemos o que é necessário e suficiente.

Não da nossa perspetiva, que tem por base as experiências passadas, mas da perspetiva da Vida, daquele momento e eventualmente do ponto de visa do Outro.

De outra forma, podemos sempre questionar, o que nos conduz à necessidade de fazer mais pelo Outro, ou de mostrar que fazemos muito.

Questionar o que nos leva a criar cenários complexos, com uma grande dimensão e por vezes com muitos dramas, quando o que é essencial e simples é o que é necessário no momento.

Quais as histórias que são contadas na mente quando o que tenho ou faço no momento não é suficiente? E onde está a sua origem?

E isto não invalida o querer aprender mais, descobrir outras coisas e estudar novos assuntos.

O que faz a diferença é o querer fazer tudo isto por curiosidade e prazer de conhecer, em vez da necessidade de mostrar mais do que o que existe.

Porque se o fizer porque preciso, então são as histórias da mente que estão a construir aquele momento e as necessidades que acredito serem importantes.

Será verdade que precisa de fazer mais e melhor?

Tem a certeza absoluta?