Arquivo mensal: Maio 2017

Comparativa mente

Não importa se gostamos ou não ou se nos faz sentido. Parece que apenas é importante termos igual ou melhor do que o outro.

 

Comparamos.

Uma parte dos nossos pensamentos do dia a dia é muitas vezes aplicado em comparações.

Comparações sobre o que o outro tem ou achamos que é, sobre o que eu já tive ou poderia ter.

Mas tendo em conta o facto de aprendermos como funcionar emocionalmente durante a infância, de onde vem este comportamento?

Quantas vezes ouvimos dizer em criança que o/a filho/a da vizinha/prima/irmão tem ótimas notas e que poderíamos aplicar-nos para fazer o mesmo?

Não importa se gostamos ou não ou se nos faz sentido. Parece que apenas é importante termos igual ou melhor do que o outro.

E crescemos assim, a aprender a fazer comparações. A sentir que não somos suficientes. Que o outro é melhor do que nós.

Em adultos, quantas vezes nos perguntam quando é que arranjamos emprego/casa/ companheiro/a ou temos filhos?

E quantas vezes perguntamos isso aos outros ou a nós próprios?

Mas será que estas comparações são úteis? Será que fazem falta?

Quais os pensamentos que se seguem a uma comparação? Não aquela comparação que até faz surgir pensamentos do tipo “eu sinto que estou na média ou que sou melhor do que o outro”, mas aquela comparação que me faz sentir deslocado, diferente, inferior?

Será construtivo sentir que sou melhor ou pior do que quem me rodeia? Serve para alguma coisa?

Para quê passar parte do meu tempo a viver a vida do outro e a tentar ser igual ou melhor, quando posso canalizar todo esse tempo a viver a minha vida, que é aquela que realmente pode fazer a diferença para mim?

Podemos deixar de dar tanta atenção ao que acontece no exterior e na vida do outro.

E quando surgir um pensamento comparativo, posso sempre questionar se é útil continuar a alimentar esta história ou se, por outro lado, será mais útil olhar para dentro, para as minhas características únicas.

Inspiro…expiro…questiono… e eventualmente as comparações deixam de estar tão presentes na minha vida, para dar lugar a uma maior curiosidade sobre o que acontece no aqui e agora.

Tiro ao alvo

Fazemos tiro ao alvo e esquecemos que é apenas uma probabilidade. Posso acertar ao lado, como posso acertar onde gostaria.

 

Muitas vezes sentimos necessidade de viver de acordo com objetivos estabelecidos.

Supostamente, temos de saber o que fazer e onde estar daqui a 6 meses, 2 anos, o resto da vida.

E quando não atingimos esse objetivo, sentimos a frustração de definir algo e que não podemos ter nesse momento.

Outras vezes, sentimos que parece que todas as pessoas à nossa volta têm objetivos e sabem o que fazer exceto nós.

Eu deveria ter objetivos, eu deveria saber para onde ir, como se fosse eu a decidir a vida e tudo o que acontece.

Durante este processo, não prestamos muitas vezes atenção ao que está a acontecer, neste momento, no aqui e agora. Estamos tão focados no hipotético alvo, que nos esquecemos que estamos aqui, a respirar, e que está tudo bem.

Não porque nos sentimos felizes, mas porque temos muito mais do que percecionamos, muito mais do que damos conta.

Fazemos tiro ao alvo e esquecemos que é apenas uma probabilidade. Posso acertar ao lado, como posso acertar onde gostaria.

E o importante não é receber exatamente o prémio por ter acertado. O importante é, na realidade, toda a experiência vivida, a qual se intensifica à medida que presto mais atenção ao que está a acontecer, em vez de prestar atenção ao que pode acontecer lá à frente.

E quando presto atenção ao aqui e agora, deixa de ser importante se os outros têm objetivos e se sei o que fazer daqui a 2 anos.

Em boa verdade, posso deixar a Vida fazer acontecer e posso respirar fundo e, tranquilamente, observar a paisagem.

A especialização

E mostramos aos outros que é importante seguir por este caminho, mesmo que doa, mesmo que não nos faça sentir que é por aqui.

 

De início, as emoções e as experiências que dispomos são imensas.

Reagimos com curiosidade ao que está ao nosso redor e ao que vai acontecendo, sem etiquetas e sem catálogo. Acontece apenas.

Vamos entretanto criando o nosso catálogo, de acordo com o que nos vão dizendo que é bom ou mau e o que devemos ou não fazer.

De acordo com o que quem nos acompanha aprendeu anteriormente.

E transmitimos crenças e valores que acreditamos serem absolutos, muitos deles sem que tenhamos alguma vez pensado se correspondem à realidade.

“É assim porque aprendi desta forma, e porque a vida me mostrou que esta é a verdade absoluta.”

E de um universo de experiências e emoções à disposição, vamo-nos especializando.

“Não quero vivenciar mais esta experiência porque me faz sentir algo que acredito que não gosto.”

Ao longo do tempo, vou afunilando as vivências, muitas vezes num sentido que não desejo, mas que me governa por ser aquilo em que acredito de forma inconsciente.

As vivências que me comandam, não são muitas vezes as coisas boas que acredito que posso conseguir se me esforçar muito, mas sim as que aprendi lá muito atrás e não questionei ainda.

São as vivências onde me especializei: não sou capaz, não sou importante, não sou merecedor.

Especializamo-nos sem saber como nem porquê.

E mostramos aos outros que é importante seguir por este caminho, mesmo que doa, mesmo que não nos faça sentir que é por aqui.

E porquê?

Também não perdemos tempo a questionar muitas vezes.

Questionamos sim o porque é que nos sentimos mal sem ir à raiz.

Percebi há uns tempos que me especializei demasiado. Mas neste momento, aprendo todos os dias a ganhar a diversificação. E sinto por vezes que existe um longo caminho a percorrer de volta ao momento em que tudo está ao dispor.

Ou não, e já está tudo aqui, neste preciso momento.

Aos poucos

Aos poucos, vou colecionando formas diferentes de olhar para o mesmo cenário e para o que me envolve, e algumas circunstâncias deixam de fazer sentido.

 

Não existem pílulas mágicas que me retirem anos de crenças que magoam e limitam.

Não existe aquela ferramenta que utilize uma ou duas vezes e me deixe a sentir a vida de maneira diferente e em paz.

Por vezes, são os eventos mais dolorosos e dos quais quero fugir que me conduzem à procura de algo que me faça sentir diferente.

Ocasionalmente, tentamos as soluções mais rápidas e com resultados que se sintam de imediato. Contudo, a minha experiência mostra-me que estas soluções são apenas temporárias. E, em breve, tudo volta ao mesmo e ainda com o peso acrescido de mais uma tentativa que não mostra resultados.

Mas quando se decide olhar para dentro, aos poucos, a paz e a serenidade instalam-se, de forma a que eu consiga sentir o respirar fundo e a largar o que não interessa.

Demora tempo até atingir um patamar diferente dentro de mim. Demora tempo até olhar para as mesmas situações e perceber que não sinto as mesmas sensações e que o alívio é maior.

Aos poucos, vou colecionando formas diferentes de olhar para o mesmo cenário e para o que me envolve, e algumas circunstâncias deixam de fazer sentido.

Outras, parecem enquadrar-se e revelam-se. Mostram que sempre aqui estiveram, apesar de nunca lhes ter dado atenção.

Aos poucos, vou fazendo o caminho, tendo a perceção que faço o melhor que sei a cada momento. Tal como todos os que me rodeiam.

E não preciso de concordar ou de aceitar o que se passa. Posso apenas afastar-me se assim o sentir.

Aos poucos, a serenidade instala-se.

Amarrar os camelos

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

 

Gosto de histórias pequenas, de contos e de parábolas.

Gosto da forma como parecem conter tanta informação em tão aparentemente pouco espaço verbal ou de escrita

E uma das parábolas que utilizo muito em trabalho de educação emocional é a parábola que fala do mestre que pede ao seu discípulo para amarrar os camelos antes de irem para a pousada. No outro dia de manhã, os camelos tinham ido embora e, quando o mestre questiona o discípulo, este dia que colocou os camelos nas mãos de Deus, ao que o mestre responde, mas nós somos as mãos de Deus.

No outro dia, durante uma sessão, surgiu a ideia de comparar os camelos ao tempo que temos disponível para nós. Será que amarramos os camelos, estando presente para o que está a acontecer, ou será que deixamos os camelos ir embora, lamentando o que já aconteceu ou fazendo futurologia sobre o que não sabemos se vai acontecer.

Deixamos o tempo presente correr, muitas vezes sem olhar para o que acontece, limitando-nos a responder em modo automático, permitindo que parte do tempo abale sem darmos conta disso.

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

E isso, pode conduzir-nos às respostas que se encontram à nossa volta e que deixamos ir embora, pelo facto de nem sequer pararmos de vez em quando para as olhar.

E você, já amarrou os seus camelos hoje?