Arquivo mensal: Junho 2017

O desprendimento

Mas quando o desprendimento se torna maior, também perceciono que todos os momentos surgem e vão embora, tal como a fluidez dos ciclos e das marés.

 

E, aos poucos, a serenidade instala-se.

Vinda não se sabe muito bem de onde, é uma serenidade que permite um desprendimento maior da situação que está a ocorrer.

Não porque não se gosta, mas sim porque se vive o momento e o que se passa.

E o desprendimento vem da diminuição das expectativas, vem da sensação de que tudo o que está a acontecer traz algo de útil para mim, mesmo que não seja agradável no momento.

Este permitir que a Vida flua para onde tem de ir, verifica-se quando sei que não controlo nada e que, independentemente do que possa pensar, as situações vão continuar a acontecer. E posso resistir ou apenas observar o que se passa no exterior e no interior.

E, nestes momentos, existem sensações de serenidade, de gratidão e de sintonia. E estes momentos dão lugar a outros, que nos fazem sentir angustia e dor e tristeza.

Mas quando o desprendimento se torna maior, também perceciono que todos os momentos surgem e vão embora, tal como a fluidez dos ciclos e das marés.

O desprendimento vem de uma maior observação do momento, e inicia-se eventualmente com um pensar sobre o que surge e um questionar esses pensamentos.

Possivelmente, ganha-se um espaço muito maior para que os dramas sejam pequenos e se transformem apenas e histórias que mudam e dão lugar a outras.

Fácil?

Talvez não.

Possível?

Assim que fizer sentido.

O farol

E sim, é bom termos um farol que nos guia, não de forma inflexível, mas sim um farol que se ajusta à medida que o que nos rodeia vai mudando. Um farol que se adapta às marés e aos ventos.

 

Por vezes achamos que perdemos a orientação, que perdemos o norte.

Parece que nada lá fora nos ajuda a sentir aquela sensação de pertença, de estar num caminho, de ter objetivos definidos.

Como se fosse necessário ter uma linha orientadora para me sentir confortável ou em paz. Para sentir que está tudo bem e que sou merecedor de estar aqui.

E quando essa impressão desaparece ou sentimos que os outros conseguem saber para onde ir de uma forma que não consigo?

E quando a orientação que parecemos seguir nos leva ao que aparenta ser um sítio do qual não conseguimos sair?

Será que precisamos mesmo de ter estas orientações tão bem definidas?

Se acreditamos que precisamos de uma linha orientadora estruturada e imutável, onde julgamos errado tudo o que acontece fora dessa orientação, eventualmente surgirão muitos momentos frustrantes.

Existe o planeamento, onde tencionamos fazer algo no futuro e, se acontecer de maneira diferente, vamos ajustando à medida, de forma flexível, e existe a programação milimétrica da vida, que conduz muitas vezes a frustrações, ansiedade e birras quando as coisas não estão a acontecer conforme o que foi projetado.

E sim, é bom termos um farol que nos guia, não de forma inflexível, mas sim um farol que se ajusta à medida que o que nos rodeia vai mudando. Um farol que se adapta às marés e aos ventos.

E, no final, poderemos eventualmente concluir que chegámos onde era preciso chegar, sem os dramas da inflexibilidade e da rigidez.

Na verdade, os finais são muito semelhantes.

Os temperos

E posso sempre afastar-me desse sabor muito mais em paz, sem que ele fique permanentemente registado como um algo de negativo, mas sim como algo que trouxe uma aprendizagem e que já está lá no passado.

 

São os pensamentos que trazem as sementinhas dos temperos de cada momento.

Aquele pensamento que é a origem daquela alegria, é semelhante àquele pensamento que origina aquela tristeza, apenas com o resultado diferente.

Contudo, parecemos muitas vezes focados nos pensamentos que trazem o doce ou o salgado, que pomos de parte os restantes sabores que ajudam a degustar melhor esses mesmos sabores.

Como seria o prato do dia-a-dia se apenas sentisse um determinado sabor ou aroma?

Será que teria a perceção do que esse sabor me faz sentir, se fosse sempre igual?

Ou será que me cansaria por estar em contacto permanente com o mesmo gosto?

Quando estou a tentar não pensar em determinados assuntos (tentando sempre manter aqueles pensamentos positivos), acabo por rejeitar outros temperos que poderiam conduzir a outras formas de vivenciar o presente.

Posso não gostar deste tempero, mas o que acontece quando lhe acrescento outros sabores?

Que é como quem diz, este pensamento é origem de emoções que me desagradam, mas se continuar a afastá-lo, eventualmente não conseguirei olhar para essas emoções e ficar em paz com as suas origens.

E quando fico em paz com as origens que me desagradam, não significa que aceito todos os sabores e que permito tudo. Significa apenas que essas origens já não tocam da mesma forma e não reajo de maneira automática.

E posso sempre afastar-me desse sabor muito mais em paz, sem que ele fique permanentemente registado como um algo de negativo, mas sim como algo que trouxe uma aprendizagem e que já está lá no passado.

De que forma costuma dar tempero ao momento presente? Já parou para pensar?

São histórias senhores! São histórias!

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

 

E aquelas maluqueiras que nos atacam logo pela manhã, quando estamos ainda muito ensonados, e nos deixam logo num verdadeiro estado de tristeza ou ansiedade?

Algumas surgem diretamente do passado, quando ficamos a matutar sobre o que aconteceu e não deveria ter acontecido.

Outras vêm de um futuro que não existe (o futuro é assim mesmo), e atormentam-nos de forma compulsiva, quando alimentamos estas histórias sobre o que deveria ou não ocorrer.

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

Não paramos para respirar fundo e para olhar em volta. Não paramos para perceber que, afinal de contas, existe o aqui e agora e existem as histórias que estão a desenrolar-se na minha cabeça.

E o que faz a diferença é a forma como acreditamos ou não nessas histórias.

Tal como no outro dia, quando me atrasei mais de uma hora para ir buscar o filho. Aparentemente ele estava acompanhado e nada indicava que algo estava mal, mas a ansiedade começou a crescer fortemente.

Curiosamente, antes de entrar nesta história de estou atrasada e tenho de me despachar, questionei porque é que sentia tanta ansiedade e o que era o pior que poderia estar a acontecer naquele momento.

Fez-se luz no momento em percebi que efetivamente o que estava a acontecer naquele momento era uma viagem de automóvel e que o resto não era real.

Respirei fundo, aproveitei aquela viagem e, quando cheguei ao pé do filho, ele estava tranquilo, bem-disposto e estava tudo bem.

Sem histórias e sem dramas sobre o que acontece, a vida parece fluir de maneira diferente.

Na realidade, a vida continua como sempre esteve. Eu é que a observo com outra perceção.

E este processo é gradual e vai sendo experienciado ao longo do tempo, se assim o entender.

Mas quando o faço, o que acontece ganha outro aroma. Ganha o aroma da tranquilidade e da disponibilidade para o que realmente está ali naquele momento.