Arquivo mensal: Julho 2017

O incómodo

E poderá ser que o outro deixe de incomodar, para passar a ser alguém que está presente e me ajuda a compreender melhor o que acontece dentro de mim.

 

Muitas vezes, quando a experiência que está a acontecer não é a que gostaríamos, temos tendência de tentar mudar os acontecimentos através do outro.

“O outro deveria mudar o comportamento” ou “se o outro mudasse eu responderia de maneira diferente” são exemplos de pensamentos recorrentes no dia-a-dia.

“O outro incomoda-me e deveria mudar para eu me sentir bem.”

E nem paro para pensar no porquê destes pensamentos, que são incontroláveis.

Não consigo parar de pensar (e se considero que controlo pensamentos, talvez seja melhor pensar outra vez) e também não consigo controlar o que o outro faz ou o que o outro pensa.

Durante este processo de facilitadora de trabalho de educação emocional, tenho tido experiências que me mostram que o outro, mais do que ser aquele que me incomoda, pode ser aquele catalisador para eu olhar melhor para o que acontece e para os pensamentos que surgem sobre isto.

Será que é o outro que me incomoda (coloco a atenção lá fora), ou sou eu que me incomodo com o outro (coloco a atenção cá dentro)?

E existe uma grande diferença entre querer que o outro mude porque me incomoda e sentir-me incomodado e tentar perceber porquê.

E isto não significa que os comportamentos dos outros sejam corretos e que tenha de os permitir.

Significa sim que existe algo que me deixa desconfortável e que posso questionar esse desconforto, sabendo que é meu.

Posso experimentar deixar surgir os pensamentos que incomodam sobre o outro e questionar “Quando foi a primeira vez que pensei isto sobre alguém?” ou “Quantas vezes senti este desconforto sobre outras pessoas?”

De que forma estas sensações e este desconforto me são familiares?

Como seria o meu dia-a-dia se fosse questionando os pensamentos que surgem, em vez de reagir automaticamente ao que me é colocado?

E poderá ser que o outro deixe de incomodar, para passar a ser alguém que está presente e me ajuda a compreender melhor o que acontece dentro de mim.

A preguiça

Permito-me olhar e perceber que não vale a pena manter e alimentar uma situação mais do que o necessário e que a vida irá resolver por si o que é para resolver.

 

Durante muito tempo lutei contra o facto de ser preguiçosa.

Necessitava de mostrar que estava sempre ocupada e a trabalhar, como uma formiguinha trabalhadora e dedicada.

Expressões do tipo “tenho de”, “preciso” e “deveria” eram bastante utilizadas para provar que era expedita, trabalhadora e muito, muito dinâmica.

Parece que nem permitia que as situações se resolvessem por si, ficando apenas uma parte essencial onde eu poderia intervir. Pelo contrário, eu tinha de “mostrar trabalho” e de resolver as questões.

O desgaste diário era por vezes muito grande, nestas rotinas sempre preenchidas e dedicadas a provar algo que nem tinha consciência do que estava a fazer.

Contudo, percebo agora uma grande vantagem em ser preguiçosa: quando paro para deixar que a situação tome o rumo que tem a tomar, permito que as soluções surjam sem desgaste e atrito com os outros.

O fluxo dos acontecimentos segue para onde tem de ir, e eu faço o que é para fazer, sem o cansaço de ter de provar algo seja a quem for.

Permito-me olhar e perceber que não vale a pena manter e alimentar uma situação mais do que o necessário e que a vida irá resolver por si o que é para resolver.

A preguiça pode ser considerada a mãe de todos os vícios, mas também nos pode tirar de muitas situações complicadas….

In-satisfação

Em boa verdade, os pensamentos que me conduzem não são bons nem maus. São viajantes que de vez em quando surgem no meu caminho e, se eu souber que são apenas isso, deixo-os partir sem mais dramas.

 

Quero isto, e depois quero aquilo.

E agora mudei de ideias e já não quero, ou agora que já tenho, quero outra coisa.

Por vezes, sentimo-nos tão insatisfeitos que isso incomoda. Parece que não existe nada que nos possa preencher e que existe um querer permanente, que às tantas nem sabemos bem porquê.

Sabemos apenas que este querer está aqui e não vai embora, ou desaparece apenas por instantes, para reaparecer logo ali à frente.

Mas serei eu que quero tudo isto? Ou será a minha mente, de natureza instável, que me confunde e me leva a acreditar que eu sou insatisfeito e que preciso neste momento de coisas que não estão aqui?

Esta insatisfação interior faz parte da natureza impermanente do meu lado mental, e não é algo bom nem mau. É apenas algo que existe e está por questionar.

O que me leva a acreditar que preciso do que não está presente?

Porque é que acredito que isto é algo de mau que está a acontecer?

E “isto” contém tanto os pensamentos insatisfeitos como o que penso sobre esses pensamentos.

Em boa verdade, os pensamentos que me conduzem não são bons nem maus. São viajantes que de vez em quando surgem no meu caminho e, se eu souber que são apenas isso, deixo-os partir sem mais dramas.

Eventualmente, poderei parar e sentir verdadeiramente essa insatisfação. Questionar porque me acompanha há tanto tempo. Olhar para o que pode ter sido a sua origem e quais as histórias que aí se contam.

Ao ficar em paz com esses momentos iniciais, permito-me ficar em paz com todos os outros momentos. Não deixo de ser insatisfeito, mas dou lugar às interrogações e abro espaço para outras conclusões.

E posso até abraçar essas características ao compreender as suas vantagens e até onde me conduziram, e transformar a insatisfação em satisfação interior.

 

 

Pequenas coisas – grandes desafios

São aquelas pequenas situações do dia-a-dia que se juntam e nos questionam de que forma vamos continuar a lidar com elas.  São o acumular, são a estagnação e o que vou fazer a seguir.

 

A nossa mente produz grandes filmes que provavelmente nunca vão acontecer. Este processo faz parte da sua natureza, e é a atenção que damos a esses filmes que nos provoca a ansiedade e o stress, se acharmos que são verdadeiros e que estão ou podem vir a acontecer.

Pintamos vastos cenários, e consideramos grandes desafios que temos de enfrentar quando, na realidade, é quando nos deparamos com as pequenas coisas que podemos ter a perceção de estarmos ou não em paz com o que está a acontecer.

Mais do que o grande épico com que sonhamos ou temos medo de enfrentar, é na forma como olhamos para o colega da frente ou cumprimentamos as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias que reside o estado de serenidade ou não da nossa mente.

É neste pequeno momento que vai deixar de estar aqui para dar lugar a outro, que surgem os pensamentos desafiantes.

E é neste pequeno momento que consigo perceber se estou aqui e agora ou se estou a acompanhar pensamentos lá fora, no outro, no drama.

Os grandes desafios são muitas vezes estas pequenas coisas. O desafio diário de lidar com a família ou a solidão, com o trabalho ou a falta dele, com o trânsito, com os outros.

São aquelas pequenas situações do dia-a-dia que se juntam e nos questionam de que forma vamos continuar a lidar com elas.  São o acumular, são a estagnação e o que vou fazer a seguir.

E se acredito nas histórias que a mente conta sobre estas questões recorrentes, como é que reajo quando surgem os grandes imprevistos?

Eventualmente, se parar e prestar atenção em vez de reagir, poderei abrir espaço para questionar todos estes pensamentos.

E, à medida que avanço neste processo de observador, poderá surgir a gratidão de estar presente para o que acontece, sem necessidade de mais histórias.