Arquivo mensal: Agosto 2017

Quando estou bem comigo, estou bem contigo

É um estar bem porque sei que posso parar antes de responder e o outro também.

 

Parece simples, na verdade.

Mas aparentemente, passamos muito tempo a procurar lá fora o equilíbrio, para depois nos sentirmos bem, em vez de olhar para dentro para encontrar esse bem-estar, e depois ficar em paz com o outro.

Este estar bem comigo não significa sentir sensações positivas para todo o sempre, porque se for isso que busco, a insatisfação será quase permanente.

É um estar bem que me permite sentir todas as emoções e, se estiver desconfortável, permite-me dizer ao outro o que sinto e o que pretendo.

E se o outro não concordar, sei que são a opinião e a experiência do outro e que não temos de concordar.

É um estar bem porque sei que posso sentir alegria e tristeza, amor e raiva e que tudo faz parte deste estar aqui.

É um estar bem porque sei que posso parar antes de responder e o outro também.

E se sinto insatisfação e tristeza e raiva e dor, posso prestar atenção aos pensamentos que surgem e me conduzem a julgamentos sobre essas sensações.

Posso afastar-me e ficar comigo. Posso olhar para o que acontece na mente e no corpo e questionar.

É neste questionar que me encontro muitas vezes.

Será verdade o pensamento presente?

A história que estou a contar na mente está mesmo a acontecer?

E observo o que acontece.

Pode não acontecer nada.

E pode acontecer tudo.

Quando estou bem comigo, estou bem com o que me rodeia.

A aprendizagem do não

Quando eu tenho presente de que quando digo um sim contrariado ao outro, estou a dizer não a mim, será que os pensamentos que surgem vão mudando?

 

Temos muitas vezes dificuldade em dizer um não.

Naquele momento, podemos até nem perceber o porquê deste embaraço, mas ficamos a remoer a resposta positiva dada a uma situação quando, na realidade, o desejo era mesmo o de dizer que não.

E o que nos leva a dizer que sim ao outro, em vez de “não” ou “não sei”?

O que pretendemos que aconteça ou, por outro lado, o que é que temos medo que se concretize?

Será que me dou tempo para parar e avaliar todos os dramas que se desenrolam na minha mente antes de dar uma resposta?

Aquelas histórias que me dizem que tenho de dizer “sim”, caso contrário o outro não vai gostar de mim, ou vai acusar-me de ser má pessoa ou vai embora e fico sozinho?

Se parar para pensar em todos estes contos de fadas, com tantos enredos fantásticos que se desenrolam na minha mente, o que será que vou descobrir sobre mim?

Quantas histórias são contadas pelos pensamentos que surgem e que me mostram tantos medos, tanta culpa, tanta vergonha acumulados em camadas dentro de mim?

Pensamentos que podem funcionar como um instrumento, se eu assim entender, para descascar esses estratos que dificultam o saber dizer “não”, “não sei”, “logo se vê”.

Quando eu tenho presente de que quando digo um sim contrariado ao outro, estou a dizer não a mim, será que os pensamentos que surgem vão mudando?

E será que posso parar para perceber o que me conduz a dizer tantas vezes “não” a mim?

Porque quando eu digo tantas vezes não ao que eu realmente quero, porque é que acuso o outro de não estar disponível para mim, quando sou eu que mostro o comportamento que o outro deve ter?

Eu digo “não” a mim e o outro aprende também esse processo de negação para mim, o que me conduz à tristeza, frustração e a sentir que não sou suficientemente amado e que o outro não me respeita quando, em boa verdade, sou eu que mostro o comportamento que ele deve ter.

No início da aprendizagem do não, as sensações podem ser desagradáveis, devido aos pensamentos que surgem na nossa mente e nos dizem que o outro não vai gostar ou que nos vai acusar de sermos más pessoas.

Faz parte do processo.

Mas quando me permito parar para questionar o que realmente quero, em vez de dar um “sim” automático, eu mostro ao outro o que é dizer sim a mim.

E, eventualmente, o outro aprende também como é bom sabermos respeitar o que é sentido em cada situação.

O que se encontra antes do Mas

Quando dou atenção ao que verbalizo, começo a ouvir na realidade o que estou a dizer e o que pretendo do outro.

 

Temos tendência a encontrar desculpas para nós e para os outros e, muitas vezes, nem damos conta do que estamos a fazer.

Somos questionados sobre algo e damos uma explicação mais ou menos longa, seguida de um “mas” e o raciocínio seguinte.

Em boa verdade, se prestarmos atenção ao que está a ser dito, provavelmente concluímos que tudo o que foi dito antes do “mas”, teve o objetivo de justificar algo, de mostrar ao outro que não fizemos nada de mal, e que somos boas pessoas. Mas o que está a ser dito a seguir é muito mais importante para mim.

Quando dou atenção ao que verbalizo, começo a ouvir na realidade o que estou a dizer e o que pretendo do outro.

Quero que o outro me veja como uma boa pessoa?

Quero justificar algo que me incomoda?

O que é que pretendo na realidade como aquilo que digo antes do “mas”?

Se começo a prestar atenção ao que eu digo, muito mais do que o que o outro diz, permito-me ouvir o que quero do outro e da situação.

Começo a olhar para dentro e para a forma como tento controlar o que acontecer.

Como costumamos dizer neste processo de educação emocional “como seria o meu dia se não necessitasse de me justificar?”

“Como seria um dia inteiro sem justificações, apenas prestando atenção ao que acontece na mente, quando não tento explicar ao outro o que aconteceu, e só pedindo desculpa, se necessário?”

O que é que eu pretendo com o que digo antes de um “mas”?

Já pensou nisso?

 

A paz que desejo provavelmente não existe

E se desejo lutar para obter a felicidade plena, poderei passar todo o tempo nesta guerra incessante e que dá trabalho e muito desgaste.

 

Queremos por vezes muitas coisas que achamos que não temos.

Queremos preencher o vazio, queremos lutar contra a insatisfação, queremos sentir uma felicidade plena.

E queremos paz para todo o sempre.

E é neste desejo de paz permanente que nos perdemos, porque nada é permanente e tudo se transforma.

Quando acho que encontrei finalmente o equilíbrio e que é para me manter ali, a vida dá mais uma volta e surge uma nova situação.

E posso ter reações diferentes perante estas mudanças. Posso tentar agarrar o que acho que está a ir embora, e tentar lutar para manter o que considero melhor para mim.

Ou posso parar para observar o que incomoda, para observar o desconforto que está ali para mim e para os pensamentos que surgem perante uma nova situação.

E se desejo lutar para obter a felicidade plena, poderei passar todo o tempo nesta guerra incessante e que dá trabalho e muito desgaste.

Mas quando paro para observar, presto atenção ao que existe para mim naquele momento.

E pode ser dor ou tristeza ou insatisfação. Pode ser uma guerra interior cuja origem é desconhecida.

Mas não sabemos o que é até parar.

E possivelmente, a paz que desejo pode não ser verdadeira.

Mas poderá existir uma paz que deriva da percepção de que o que acontece não é o que desejo, mas sim o que tem de acontecer.

 

O observador

Qual a utilidade de tentar mudar o comportamento do outro se eu não quero mudar e sou eu que me incomodo?

 

Como seria o momento se passasse um dia inteiro a questionar os pensamentos que surgem?

Como seria se não considerasse os pensamentos que aparecem como informação que já conhece, mas sim como coisas por descobrir?

E como seria se não acreditasse quando se mostram pensamentos do tipo “amanhã é segunda-feira e tenho de ir trabalhar” ou “o filho deveria ouvir-me” ou “preciso de mais dinheiro”?

Teria apenas de observar as reações físicas e o que se está a passar neste momento. Tornar-se espectador dos pensamentos, permitindo desta maneira um fluxo das histórias que vão e vêm.

Podem surgir pensamentos a dizer que não posso questionar essas histórias, que eu preciso e tenho de fazer aquelas coisas todas e que tenho de me preocupar.

Histórias de medos, de vergonhas e de culpas, todos com origem no passado distante e que se multiplicaram ao longo de anos.

E posso observar o que vem, o incómodo que sinto, as reações físicas e os pensamentos que me dizem que o que estou a fazer não tem sentido.

E continuo apenas enquanto observador, questionando se todos estes pensamentos são verdadeiros e o que me fazem sentir.

Será que é útil continuar a sentir ansiedade por uma coisa que não está a acontecer?

Qual a utilidade de tentar mudar o comportamento do outro se eu não quero mudar e sou eu que me incomodo?

Eventualmente, poderei sentir-me ridículo neste processo e rir-me um bocado durante o dia.

Mas também poderei encontrar algumas respostas que surpreendem pela sua simplicidade.

E, se o fizer regularmente, poderei aprender a estar presente para mim no momento presente e concluir que, quando relativizo os pensamentos que surgem, fico mais em paz para mim e para os outros.

Torno-me apenas o observador do que acontece, sem mais histórias.