Arquivo mensal: Setembro 2017

Deserto de pensamentos

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

 

Recordo dos tempos em que já não suportava a conversa incessante a acontecer na mente.

Dos pensamentos que vinham e das histórias que aconteciam logo de seguida e de forma permanente.

Recordo das narrativas intermináveis que aconteciam na mente e que me deixavam muito ansiosa e sem capacidade de reagir ao que estava a acontecer no momento de forma distante.

Ao fazer este trabalho de educação emocional, algo começou a mudar dentro das histórias. Deixaram de ser tão intensas e tão frequentes.

Dei por mim a ter o que chamava de ilhas de serenidade na minha mente.

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

Também lhe chamava um deserto de pensamentos – espaço mental onde nada de especial acontece e apenas existe o presente.

E depois lá vinham os pensamentos que davam origem às histórias e tudo voltava outra vez.

Não com tanta intensidade, mas lá estavam presentes, juntamente com o que estava a acontecer.

Aos poucos, e à medida que questionava as narrativas do passado ou as histórias do futuro e encontrava o que traziam de útil para mim, fui ficando mais confortável com todos os pensamentos presentes.

Deixei de desejar não pensar sobre os assuntos, para parar e pensar sobre a verdade dos mesmos. “O que é que este pensamento diz sobre mim?” “Qual a história que estou a contar na minha mente que me faz sentir desconfortável?” “Onde é que aprendi este desconforto?”

Aprendi que questionar os pensamentos que surgem é uma ferramenta eficaz para dar espaço às ilhas de serenidade.

Eu não preciso deixar de pensar. Posso sim pensar sobre estas histórias que penso sobre mim, questionar se são verdadeiras e onde é que as aprendi.

O deserto de pensamentos deriva do processo de questionar esses mesmos pensamentos.

E quando encontro as vantagens dos mesmos, eles vão embora.

Vestir emoções

Se não julgar as emoções e as suas expressões que surgem, elas ficam presentes para me chamar a atenção de algo que é meu no momento e depois vão embora.

 

Neste momento tenho um sorriso vestido.

Se começar a pensar porquê, surgiu quase do nada, vindo de uma alegria.

E aqui está ele, sem justificações coladas ou necessárias. Apenas está.

E pode ficar durante algum tempo, ou pode desaparecer para dar lugar a uma lágrima ou um grito.

São todas expressões válidas para vestir, como formas de representar emoções.

E não quer dizer que este sorriso represente sempre uma alegria ou que o grito represente raiva.

As expressões podem trocar de lugar entre si, com sorrisos tristes e gritos de alegria.

Sem qualquer necessidade de justificar seja o que for, surgem as emoções e as suas manifestações diversas, que dão lugar às emoções e manifestações que vêm a seguir, num ciclo onde não existe esforço, mas sim fluidez.

Se não julgar as emoções e as suas expressões que surgem, elas ficam presentes para me chamar a atenção de algo que é meu no momento e depois vão embora.

E são todas válidas e fazem parte de mim.

Experimente prestar apenas atenção à emoção e à sua expressão presente no momento.

Veja agora quais os pensamentos que surgem relativamente a essa emoção e à sua expressão.

É um julgamento do tipo “não deveria sentir isto” ou “preciso sentir de outra forma”?

Posso sempre questionar quando tenho pensamentos que julgam. Será que são verdade? E qual a origem desse julgamento?

E posso também verificar a utilidade da emoção e da sua expressão.

Eventualmente, posso aprender mais sobre mim, e compreender que, na verdade, cada emoção e cada expressão são válidas e podem trazer mais uma mensagem de mim e para mim.

Que emoção tem vestida neste momento?

O equilíbrio desequilibrante

E, surpreendentemente, à medida que o tempo passa, quanto mais eu busco esse equilíbrio, mais as situações se tornam frustrantes e mais se desequilibra o dia-a-dia.

 

Parece que por vezes somos bombardeados pelo exterior sobre a necessidade de termos uma vida mais equilibrada.

Tenho de trabalhar menos, tenho de ter um relacionamento, tenho de ter um emprego, tenho de ter filhos, tenho de ser mais magro, tenho de ter mais qualquer coisa para que a vida atual possa fazer mais sentido.

Surgem questões sobre supostos desequilíbrios que existem e cujos aspetos têm de ser melhorados, para que a minha vida possa passar para outro nível.

E lá vamos nós, em busca de algo que nos disseram (ou que lemos algures) que falta na nossa vida e que acreditámos ser verdade.

Ou aprendemos bem lá atrás que existem coisas que têm de estar presentes para sermos felizes.

Supostamente, sem esses elementos, somos pessoas incompletas e temos vidas imperfeitas.

E, surpreendentemente, à medida que o tempo passa, quanto mais eu busco esse equilíbrio, mais as situações se tornam frustrantes e mais se desequilibra o dia-a-dia.

Até aprender a olhar para o que existe no momento, tenho dificuldade em parar para questionar sobre essas supostas necessidades e sobre essas listas das quais temos de picar todos os pontos para que nos encontremos felizes para todo o sempre.

E onde se encontra o meu equilíbrio?

Encontra-se exatamente aqui, neste momento.

Inclui todas as coisas que achei que deveria ter e não tenho, tal como as que considerei que deveriam desaparecer e aqui estão.

A diferença?

Reside na forma como reajo a todas estas necessidades que consideramos impostas pelos outros ou autoimpostas.

Posso continuar a acreditar que preciso de algo para ter equilíbrio, ou posso questionar aquilo em que acredito.

Posso questionar todas estas supostas verdades e parar para ouvir as respostas. Não as respostas dos outros, mas as minhas respostas.

Será que isto é verdade?

Posso continuar a acreditar que sim, que preciso de mais coisas neste momento para ter equilíbrio.

Mas dei-me tempo para olhar para o que aqui vai.

Se parar o suficiente, posso até chegar à conclusão que neste momento tenho tudo o que necessito.

E, se assim for, será que ainda tenho necessidade de mais equilíbrio?

Não sei, eu não vi

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

 

Sou por vezes questionada sobre o facto de ter tempo para fazer tantas coisas ao mesmo tempo.

Em boa verdade, as coisas não são feitas ao mesmo tempo, mas uma de cada vez e conforme o tempo disponível.

Mas pensando um bocado sobre o assunto, não costumo perder tempo com as questões dos outros, a não ser que me peçam para tal.

Nunca perdi muito tempo a dedicar-me à vida alheia e, quando me pedem opinião sobre o assunto, eu não sei o que dizer, já que não estou dentro da vida do outro, pelo que não me desgasto com essas questões.

E este tempo é aproveitado para me dedicar a algo que gosto e que dá prazer ou a algo que está por fazer e é útil que fique resolvido.

Dedicar-me ao que está a acontecer no momento também tem grande utilidade, em vez de me dedicar ao passado ou ao futuro.

Nesta parte já fui muito habilidosa e já dediquei muito tempo a construir histórias mentais, que apenas serviam para consumir tempo e energia.

E hoje em dia, todo este tempo que está à disposição é na sua maior parte utilizado para o que acontece no momento, e para o que me diz respeito.

Se não tem a ver comigo ou se não está a acontecer, é provável que dedique pouca atenção.

E sim, gosto de planear coisas para o futuro mais próximo ou mais longo. Pensamentos do tipo acontecem: “Apetece-me crepes para o jantar e quero ir comprar coentros para o recheio.”

E se não houver coentros? Logo se vê. Faz-se qualquer outra coisa.

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

Não se canaliza atenção e energia para algo que não existe e não está a acontecer.

E o tempo disponível é utilizado para outras coisas. Para me dar atenção, para dar atenção ao que gosto, para dar atenção aos que estão presentes no momento.

Não sei, eu não vi, liberta-me a atenção do que está no exterior, para que possa olhar para o momento atual que existe para mim.