Arquivo mensal: Outubro 2017

Ser melhor

Deixar de julgar pode ser aquele estado mental em que não luto contra o que está a acontecer, mas sim que paro para prestar atenção ao momento presente.

 

Parece que passamos muito tempo a ouvir/ler/pensar que podemos ser melhor do que somos. Podemos ser melhores pessoas, melhores progenitores, melhores profissionais, utilizando um conjunto de técnicas, fazendo um esforço maior do que já fazemos ou trabalhando para atingir um Eu mais perfeito.

Trabalhamos dessa forma para deixarmos de ser a lagarta e passar a ser a famosa borboleta, como se existisse algo de errado na fase de lagarta, como se fosse apenas um meio para atingir um fim.

E o que é isto de ser melhor pessoa?

Será que pretendo ser melhor com os outros, colocando-me em situações onde me forço a dizer sim a experiências, quando na realidade vou contra o que desejo?

Quando acredito que posso ser melhor do que sou neste momento, estou a acreditar que existe algo de errado e que tem de ser modificado, retificado, alterado, corrigido para algo que se considera ser melhor.

E como conseguirei ser melhor do que sou agora, se não gosto de algo em mim que existe neste momento, se rejeito uma parte de mim?

Como consigo melhorar algo que não aceito neste momento?

Na minha experiência, a Vida tem tendência a repetir situações até que aprenda as vantagens desse contexto e fique em paz com ele.

E se luto contra algo que faz parte de mim, esse pedaço vai fazer-se ouvir em situações repetidas, até que eu escute finalmente que não existe nada neste momento que não me possa trazer vantagens, mesmo que essas vantagens estejam em formato de aprendizagem.

A minha experiência diz-me que existe algo no meu atual Eu que me ajuda e me torna completa, mesmo que eu não compreenda o porquê neste momento.

Em boa verdade, mais do que compreender, se eu parar para ouvir o que me incomoda e que me causa desconforto, e se questionar o que na realidade está a ser dito, possivelmente poderei integrar essa situação que julguei durante tanto tempo como desconfortável e ficar em paz com ela.

Quando integro o que rejeitei em mim no passado, não me torno uma melhor pessoa. Torno-me uma pessoa completa.

E quando sou uma pessoa completa, deixo cair os julgamentos relativamente a mim e aos outros.

E ao deixar de julgar, será que existe algo para ser melhorado neste momento?

Deixar de julgar não significa ficar inerte e fazer nada.

Deixar de julgar pode ser aquele estado mental em que não luto contra o que está a acontecer, mas sim que paro para prestar atenção ao momento presente.

Permitir acontecer

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

 

A vida acontece sem necessidade de qualquer permissão. Os acontecimentos sucedem-se sem que tenhamos de dar autorização ou validar seja o que for.

E quando funcionamos fora deste fluir, acreditando que temos de lutar pelas coisas e que somos responsáveis pelas eventualidades, criamos resistência, ansiedade e, por vezes, muita dor.

Permitir acontecer, é deixar fluir os acontecimentos sem julgamentos ou etiquetas. É sentir que nada do que possa fazer neste momento pode alterar o que a vida pretende, e perceber que posso parar para ouvir e respirar o que o momento me diz.

Permitir acontecer não é deixar de desejar algo no futuro, mas sim desejar e deixar acontecer o que tiver de acontecer. E, se não for esse o caminho, é porque a experiência a viver não passava por aí.

Permitir acontecer não é ficar impossibilitado de pensar no passado, mas sim deixar que esses pensamentos nos visitem e possam ir embora. E se vier uma tristeza ou uma alegria, sentir essa emoção.

Permito acontecer quando estou neste momento, sem forçar os acontecimentos, sem achar que a vida é injusta porque não me dá o que acho que preciso, sem julgar o outro apenas porque tem experiências diferentes da minha.

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

Quando aprendo a desmontar as histórias da mente e deixo de lhes dar a importância passada.

E, no início, pode não ser um processo fácil, porque tenho primeiro de permitir-me ser vulnerável perante mim e os outros. Porque entendo que, se quero que os outros sejam gentis, não espero que isso aconteça e que a gentileza começa em mim, sem necessidade de retorno do outro.

Aos poucos, permito que aconteça a alegria em mim, independentemente de algumas pessoas à volta não estarem alegres. Apenas compreendo que somos pessoas com experiências diferentes e que posso ficar ou afastar-me.

Eventualmente, sinto a vida a viver-se através de mim. Não sou eu que tenho as ideias para escrever um texto, mas são as ideias que surgem, não se sabe de  onde e também não importa.

Sou sim o veículo através do qual se permitiu que o texto acontecesse.

E pode entretanto surgir mais outra ideia ou não.

Não como uma marioneta da qual são puxados os fios do seu movimento, mas sim como um ouvinte, que dá mais atenção aos pequenos detalhes e sussurros, que sugerem o caminho, pelo qual eu posso sempre deslocar-me ou não.

Permitir acontecer é simplesmente estar aqui.

A rapariga que queria que todos gostassem dela

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

 

Apesar do texto estar escrito no feminino, pode também ser lido no masculino. Independentemente do género, acreditamos muitas vezes que existe algo de errado em nós.

Neste caso, a rapariga recordava desde sempre acreditar que existia algo de errado consigo, e fazia os possíveis para que tudo o que fizesse não fosse menos que perfeito.

Não era um acreditar consciente, mas as suas ações para consigo e para com os outros revelavam muito das suas crenças.

As sensações que derivavam desse acreditar, levavam-na a ser alguém mais contido perante algumas pessoas ou situações e, por vezes, faziam com que se sentisse desenquadrada, que era alguém inferior e que estava sempre a fazer asneiras.

Mesmo com pessoas próximas, e apesar das atitudes serem mais naturais, ocasionalmente as circunstâncias faziam com que a rapariga que queria que todos gostassem dela se retraísse e alterasse alguns comportamentos.

Quando cresceu, a rapariga adotou uma maneira de estar mais reservada, atenta ao que o outro poderia estar a pensar dela e das suas atitudes, muito em especial nos relacionamentos.

Em certas situações, deixava de haver espontaneidade, para dar lugar ao silêncio ou às atitudes ponderadas, para que tudo fosse perfeito, nada falhasse e todos gostassem da rapariga, pois um dos seus maiores medos era o de ser inconveniente para com o outro.

Contudo, e por mais que tentasse, os outros mostravam-lhe muitas vezes que não gostavam do que ela fazia, que ela estava sempre a fazer asneiras e que não era merecedora de ser reconhecida.

A frustração e a ansiedade passaram a ser uma presença constante no seu dia-a-dia, e cada vez mais a rapariga que queria que todos gostassem dela sentia que nada do que pudesse fazer iria mudar a opinião que os outros tinham de si.

Até que algo de mágico aconteceu.

A frustração e a ansiedade cresceram de tal forma, que pareciam ocupar todo o momento presente. E, perante tanta dor, a rapariga sentiu necessidade de fazer algo para mudar todas estas sensações.

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

Mas, à medida que essas histórias eram olhadas de outra maneira, foram caindo por terra, dando lugar a outras histórias vindas de uma maneira de estar muito mais observadora.

A rapariga cresceu um pouco mais, não no seu exterior, mas no seu interior, ao olhar para cada história que ia surgindo e para as fábulas vindas do passado, onde ela acreditava que algo de errado existia consigo.

O julgamento a si e ao outro deram lugar a uma maior serenidade.

A rapariga concluiu que era ela que não gostava de algumas partes de si e, quando alguém lhe chamava a atenção para alguma coisa que fazia ou uma parte de si própria, essa chamada de atenção magoava, porque a rapariga acreditava que era verdade, por mais que tentasse esconder.

Afinal de contas, se o outro mostrava que algo estava errado e se ela achava que sim, o outro apenas validava a sua história.

À medida que foi crescendo no seu interior, ficaram as experiências para serem partilhadas com quem as quiser ouvir.

Ficou o agradecimento por todos aqueles que mostraram à rapariga que nada de errado existe consigo, e que os outros só nos magoam se acreditarmos no que eles estão a dizer.

Muitos passaram e foram embora. Outros ficaram e novos ainda surgiram. E está presente a gratidão por este grupo que partilha as histórias atuais. Eles mostram todos os dias que os julgamentos e as crenças do passado estão muito mais ténues.

E as atitudes do outro podem ou não fazer sentido. Mas mais que fazer um julgamento, a rapariga pode afastar-se, permitindo que se instale o respeito por si e pelo outro.

E a rapariga aprendeu que não precisa que todos gostem dela. Basta que ela própria goste de si, tal como é.

 

Comunicar no silêncio

É quando comunicamos connosco no silêncio exterior, que conseguimos chegar à origem do ruído interior.

 

Sentimos muitas vezes necessidade de dar resposta ao outro, ao que o outro me questiona e pede de uma forma quase imediata.

Gostamos de ter a “resposta na ponta da língua”, e pedimos aos que nos rodeiam que nos respondam rapidamente, para respondermos de seguida.

Mas será que ouvimos o que o outro nos diz?

Será que nos ouvimos através destas respostas imediatas e “cheias de razão”?

Se me questionar sobre o que me faz ter necessidade de ter razão e de dar estas respostas, o que poderá estar na sua origem?

Quando sinto desconforto no silêncio e na falta da resposta imediata, quais as histórias que estão a ser contadas na minha mente?

Qual o discurso que surge: “eu/o outro deveria fazer…” “eu preciso de…”?

Que tipo de sensações estou a esconder na resposta imediata e na necessidade de ter razão?

É na quietude que encontro o caminho para as respostas possíveis que nos conduzem a um maior conhecimento dos nossos gatilhos e do que nos move de forma automática.

É quando comunicamos connosco no silêncio exterior, que conseguimos chegar à origem do ruído interior.

E o que é aparentemente simples de se fazer, parece na realidade ser muito complicado: estarmos em silêncio e ouvir as histórias que vão acontecendo na mente.

Até que se torna num mecanismo útil e nos faz desligar os gatilhos vindos das histórias da mente.

E provavelmente as histórias irão continuar a surgir. Mas muda a forma como olhamos para elas e as deixamos ir.

Não preciso de deixar o outro a falar sozinho, mas posso sempre informar que vou pensar sobre o assunto.

Comunicar no silêncio poderá ser a ferramenta para desligar gatilhos que nos conduzem a reações automáticas e para encontrarmos uma maior serenidade interior.