A rapariga que queria que todos gostassem dela

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

 

Apesar do texto estar escrito no feminino, pode também ser lido no masculino. Independentemente do género, acreditamos muitas vezes que existe algo de errado em nós.

Neste caso, a rapariga recordava desde sempre acreditar que existia algo de errado consigo, e fazia os possíveis para que tudo o que fizesse não fosse menos que perfeito.

Não era um acreditar consciente, mas as suas ações para consigo e para com os outros revelavam muito das suas crenças.

As sensações que derivavam desse acreditar, levavam-na a ser alguém mais contido perante algumas pessoas ou situações e, por vezes, faziam com que se sentisse desenquadrada, que era alguém inferior e que estava sempre a fazer asneiras.

Mesmo com pessoas próximas, e apesar das atitudes serem mais naturais, ocasionalmente as circunstâncias faziam com que a rapariga que queria que todos gostassem dela se retraísse e alterasse alguns comportamentos.

Quando cresceu, a rapariga adotou uma maneira de estar mais reservada, atenta ao que o outro poderia estar a pensar dela e das suas atitudes, muito em especial nos relacionamentos.

Em certas situações, deixava de haver espontaneidade, para dar lugar ao silêncio ou às atitudes ponderadas, para que tudo fosse perfeito, nada falhasse e todos gostassem da rapariga, pois um dos seus maiores medos era o de ser inconveniente para com o outro.

Contudo, e por mais que tentasse, os outros mostravam-lhe muitas vezes que não gostavam do que ela fazia, que ela estava sempre a fazer asneiras e que não era merecedora de ser reconhecida.

A frustração e a ansiedade passaram a ser uma presença constante no seu dia-a-dia, e cada vez mais a rapariga que queria que todos gostassem dela sentia que nada do que pudesse fazer iria mudar a opinião que os outros tinham de si.

Até que algo de mágico aconteceu.

A frustração e a ansiedade cresceram de tal forma, que pareciam ocupar todo o momento presente. E, perante tanta dor, a rapariga sentiu necessidade de fazer algo para mudar todas estas sensações.

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

Mas, à medida que essas histórias eram olhadas de outra maneira, foram caindo por terra, dando lugar a outras histórias vindas de uma maneira de estar muito mais observadora.

A rapariga cresceu um pouco mais, não no seu exterior, mas no seu interior, ao olhar para cada história que ia surgindo e para as fábulas vindas do passado, onde ela acreditava que algo de errado existia consigo.

O julgamento a si e ao outro deram lugar a uma maior serenidade.

A rapariga concluiu que era ela que não gostava de algumas partes de si e, quando alguém lhe chamava a atenção para alguma coisa que fazia ou uma parte de si própria, essa chamada de atenção magoava, porque a rapariga acreditava que era verdade, por mais que tentasse esconder.

Afinal de contas, se o outro mostrava que algo estava errado e se ela achava que sim, o outro apenas validava a sua história.

À medida que foi crescendo no seu interior, ficaram as experiências para serem partilhadas com quem as quiser ouvir.

Ficou o agradecimento por todos aqueles que mostraram à rapariga que nada de errado existe consigo, e que os outros só nos magoam se acreditarmos no que eles estão a dizer.

Muitos passaram e foram embora. Outros ficaram e novos ainda surgiram. E está presente a gratidão por este grupo que partilha as histórias atuais. Eles mostram todos os dias que os julgamentos e as crenças do passado estão muito mais ténues.

E as atitudes do outro podem ou não fazer sentido. Mas mais que fazer um julgamento, a rapariga pode afastar-se, permitindo que se instale o respeito por si e pelo outro.

E a rapariga aprendeu que não precisa que todos gostem dela. Basta que ela própria goste de si, tal como é.

 

9 comentários a “A rapariga que queria que todos gostassem dela

    1. Lurdes Peixoto

      É de facto uma realidade atual! Infelizmente muitas( os) por vezes chegam a extremos desrespeito por si e manipulaçao! É tão importante e prioritário olhar para dentro com uma atitude carinhosa, amorosa e de tolerância para csigo mesmo! É urgente respeitar o nosso ser interior! É urgente aceitar, confiar e compreender! É urgente ser feliz!!

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  1. Carlos Ferreira

    Sinto que conheço a rapariga que queria que todos gostassem dela.
    A reflexão interior é o caminho para o auto conhecimento, para a interiorização do seu eu.
    Ao aceitarmo-nos como somos estamos a encontrar espaço para acomodar os nossos medos, crenças, fobias valorizando o nossa força, determinação e carater, sem darmos por isso estamos a aceitar os outros a nossa volta tal como são. Quem não muda não evolui a rapariga que queria que todos gostassem dela já começou o seu processo de evolução interior.(NAMASTÊ)

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  2. Cecília Arinto David

    Muito bem explicado este conflito que atravessa a nossa vida: o aceitar a nossa imperfeição frente á ‘ perfeição ‘ dos outros.
    Afinal Jesus disse que era importante “amar os outros como a si mesmo”.

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    1. Carlos Ferreira

      Como se aprende a gostar de nós? Sempre que se deparar com conflitos emocionais ou de qualquer outra ordem faça as perguntas para dentro de si ou seja
      ao invés de perguntar PORQUE ME FIZERAM ISTO ou PORQUE NÃO GOSTAM DE MIM pergunte o que eu fiz para me fazerem isto, o que eu fiz para não gostarem de mim, não deixe o seu sub consciente responder imediatamente, desligue-se que a resposta mais a frente vai surgir na sua mente e quando menos esperar, se a resposta for eu mão fiz nada de errado leve em conta a sua auto estima mas se a resposta for eu fiz isto ou aquilo leve em conta essa resposta tal como ela se lhe depara eleve a sua consciência a dimensão da sua espiritualidade e aceite os seus erros, seja grato trabalhe arduamente em si próprio, seja gentil com os outros e ame incondicionalmente. NAMASTÊ

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    2. anapifre Autor do artigo

      Olá Ana!
      A minha experiência enquanto facilitadora de trabalho de educação emocional mostra-me que eu dou início a um processo de gostar de mim quando questiono os pensamentos que surgem sobre mim.
      Quando acredito que não sou suficientemente boa ou que não presto, parar para perceber quando foi a primeira vez que surgiu este pensamento? O que estava a acontecer?
      E, se acredito que não sou suficientemente boa, o outro vai mostrar-me apenas aquilo que acredito.
      O nosso sistema de crenças está formado aos 6, 7 anos. A partir daí, repetimos experiências com base nesse sistema.
      Quando desmonto essas crenças ao iniciar um processo de questionamento, fico muito mais em paz.
      Compreendo que quem eu sou não se identifica apenas com os pensamentos que surgem. É muito mais do que isso.
      E não é um processo fácil, mas é um processo que não tem preço, pela paz e serenidade que se ganha.
      Um abraço!

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  3. Cristina Rosa Lã

    A história que pode ser de qualquer um.
    Uns passam pela vida.
    Alguns descobrem a revolução silenciosa.
    Namasté

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