Arquivo mensal: Novembro 2017

O outro lado das coisas

A perda, a dor, a frustração, estavam ali para mostrar que existe algo em todo este processo de aprendizagem.

 

Uma das ferramentas que me tem ajudado ao longo dos últimos anos, consiste em olhar para o outro lado que está a acontecer.

Olhar para a situação como se estivesse a olhar de fora.

Ou, quando não consigo estar de fora, tentar encontrar as vantagens dessa situação.

Por vezes, pode parecer impossível encontrar uma vantagem quando estou a caminho do hospital por alguma questão de saúde ou alguma dor, mas existe um hospital para onde ir.

E eu poderia estar sem qualquer tipo de apoio ou de assistência.

E existem pessoas que tomam conta de mim.

E a questão ou a dor continuam a existir, tal como a assistência e o apoio. E posso relativizar o que acontece e olhar para as diversas coisas que acontecem naquela altura, ou posso dramatizar a achar que tudo de mal me acontece e sou um coitadinho ou coitadinha.

Na realidade, posso reagir conforme me fizer sentido, sem que haja a forma correta de o fazer.

Existe apenas o que acontece no momento e os pensamentos que surgem sobre isso.

Posso fazer um drama ou observar o que acontece.

Na minha experiência, sempre que fiz um drama, a Vida ia mostrando a seguir que o pior poderia estar para acontecer.

Não como uma forma de penalização, mas como uma aprendizagem que mostrava que tudo é relativo.

A perda, a dor, a frustração, estavam ali para mostrar que existe algo em todo este processo de aprendizagem.

Quando aprendi a olhar para o outro lado do que acontece, passei a ter menos dramas a acontecer cá dentro, e a ter mais espaço para respirar e sentir o momento.

E a sensação pode não ser agradável, mas é sentida com muito menos carga emocional e mais como uma experiência.

Será que perco quando algo se afasta e me prejudica?

Ou será um benefício?

E se tudo o que existe neste momento saísse para dar lugar a novas situações?

Como poderíamos renovar, mantendo tudo na mesma?

A Vida mostra-nos o seu permanente movimento.

E o outro lado das coisas, permite-nos dar lugar à observação do que acontece e espaço para o que acontece no momento seguinte, liberto de dramas.

Perdemo-nos no medo de perder

O medo de perder o que não é nosso aumenta, à medida que o tempo passa e os anos acontecem.

 

Perdemo-nos no medo de perder pessoas e situações. De perder o/a companheiro/a, o emprego, o/a amigo/a, a imagem.

E, no meio deste medo, partes de nós vão sendo camufladas, para que “nada de mal aconteça” ou por “uma boa intenção”.

“Não devo fazer isto ou dizer aquilo” povoam a nossa mente, camuflando e ocultando de nós próprios e do outro o que faz parte da nossa essência.

E, aos poucos, não sou eu que estou na frente do outro, não sou eu estou com o outro, mas apenas uma parte de mim.

Um eu incompleto, cheio de vergonha e de medo.

Curiosamente, temos medo de perder, quando na realidade, já perdemos o mais importante, o contacto com a essência e com o genuíno que há em nós.

E nem nos damos conta do que perdemos cá dentro, para alimentar o que existe lá fora.

O medo de perder o que não é nosso aumenta, à medida que o tempo passa e os anos acontecem.

Eventualmente, ocultamos tanto da nossa essência, que nos tornamos totalmente sombra de nós próprios.

Já não somos nós que estamos presentes no momento, mas apenas o medo, a culpa e a vergonha.

E lidamos também com o medo, a culpa e a vergonha do outro, em vez da sua essência.

Por vezes, o melhor que pode acontecer, é chegar ao que achamos ser o limite de não aguentar mais, e que nos leva a querer fazer algo para descobrir a essência e o que existe de genuíno em nós.

Pode ser um processo doloroso, mas eventualmente é um processo libertador de todas as camadas que não me permitem ficar em paz.

Uma ferramenta que permite descobrir e integrar todas as partes em mim, até ficar completo.

Talvez descubra que não posso perder nada que não é meu, que a Vida me emprestou e que não sei quando vai pedir de volta.

Mas é o que está presente para mim no momento, e posso ficar grato por isso.

E os medos poderão continuar presentes também. E eu, em vez de os ocultar, estarei enquanto observador dessas histórias, permitindo que entrem e saiam da mente, apenas como filmes que são. Nada mais.

Pensamentos Incomodantes

” A partir do momento em que olhamos para algum acontecimento por outro prisma, relativizamos o acontecido, e os pensamentos obsessivos deixam de estar tão presentes no dia-a-dia, levando-nos a uma maior paz e afastamento natural de conflitos.

Se tivesse de definir numa frase até onde me levou esta experiência, diria que deixei de ver apenas as árvores e passei a ver melhor a floresta.”

Retirado do livro “Pensamentos Incomodantes”

A falha

Como seriam os meus dias se sentisse que o que acontece no momento traz algum ensinamento para mim?

 

Buscamos de alguma forma o erro e a falha no que acontece no momento.

Parece que aprendemos desde muito cedo que existe um guião a cumprir e que tudo o que esteja fora desse contexto, é errado e tem de ser corrigido.

A partir de uma certa altura, dedicamo-nos a aperfeiçoar todos os acontecimentos, apontando o dedo ao que aparentemente está mal, sem questionarmos se o guião que seguimos é verdadeiro.

Na realidade, será que sei quem inventou todos os conceitos pelos quais me guio?

Alguma vez questionei os pensamentos que surgem após detetar que não está a acontecer o que eu gostaria?

Será que questionei porque é que acredito que necessito que as coisas aconteçam desta forma e o que significam para mim os acontecimentos atuais?

A suposta falha em nós e no que fazemos é algo a evitar e corrigir.

E, quando surge, é avaliada, julgada e etiquetada para futura correção.

Como se a Vida que acontece no momento estivesse errada.

Como se não existisse mais nada para além do guião que seguimos, mais nenhuma perspetiva, mais nenhuma forma de olhar para o momento.

Ao longo do tempo, devido a esta busca da falha para a correção, vamo-nos tornando menos genuínos, mais apagados, cheios de condicionamentos.

E será que a Vida que acontece no momento está errada?

Ou será que, em vez de questionar porque é que falhei e porque é que isto me está a acontecer a mim, eu posso questionar o que aprendi durante o processo, o que ganhei e o que deixou de fazer sentido?

Como seriam os meus dias se sentisse que o que acontece no momento traz algum ensinamento para mim?

Poderá existir algo de errado no que acontece no momento desta forma?

O Não respeitável

Prefiro pessoas pouco transparentes ao meu redor, para que eu me sinta feliz apenas porque todos fazem o que desejo?

 

Quantas vezes durante a semana eu digo um não respeitável?

E o não respeitável é aquele não que é dito com medo do que o outro possa ficar a pensar de mim.

É o não que se diz quando achamos seguro em negar o que o outro nos está a pedir.

É um nãozinho, que parece que não vai prejudicar ninguém.

Porque, o que é que aconteceria se eu dissesse não, independentemente do que o outro pudesse ficar a pensar de mim?

Como seriam os pensamentos seguintes a um não que me respeita, pelo facto de dizer sim a mim? Sim ao que eu desejo neste momento, e que pode não ir ao encontro do que o outro deseja?

Como seriam os meus dias, ao parar para escutar o que me faz sentido no momento, e responder de acordo a essas orientações, em vez de dizer que sim apenas para que o outro não pense mal de mim?

E como seriam os dias, ao perceber que o outro também responde sim ou não, sendo verdadeiro consigo próprio e comigo, independentemente do que desejo no momento?

Será que quero que quem está à minha frente diga sim apenas para me agradar?

Ou será que prefiro que o outro seja verdadeiro consigo e comigo, dando respostas de acordo com a sua essência?

Prefiro pessoas pouco transparentes ao meu redor, para que eu me sinta feliz apenas porque todos fazem o que desejo?

Ou prefiro pessoas cristalinas e que se respeitam, mesmo que tenham atitudes independentes da minha vontade?

E se a resposta que faz sentido é a que diz que gosto de pessoas verdadeiras e cristalinas, posso eu dar os primeiros passos para respostas autênticas e de acordo com a minha essência, em vez de sins ou nãos respeitáveis, respeitando também o outro de atitudes independentes da minha vontade?

E não existem respostas certas. Apenas respostas que podem fazer sentido.

 

(Dedicado à querida R que, apesar de não gostar de chá, já bebeu várias canecas até conseguir dizer um não respeitável.)