Aquivo do autor: anapifre

A falha

Como seriam os meus dias se sentisse que o que acontece no momento traz algum ensinamento para mim?

 

Buscamos de alguma forma o erro e a falha no que acontece no momento.

Parece que aprendemos desde muito cedo que existe um guião a cumprir e que tudo o que esteja fora desse contexto, é errado e tem de ser corrigido.

A partir de uma certa altura, dedicamo-nos a aperfeiçoar todos os acontecimentos, apontando o dedo ao que aparentemente está mal, sem questionarmos se o guião que seguimos é verdadeiro.

Na realidade, será que sei quem inventou todos os conceitos pelos quais me guio?

Alguma vez questionei os pensamentos que surgem após detetar que não está a acontecer o que eu gostaria?

Será que questionei porque é que acredito que necessito que as coisas aconteçam desta forma e o que significam para mim os acontecimentos atuais?

A suposta falha em nós e no que fazemos é algo a evitar e corrigir.

E, quando surge, é avaliada, julgada e etiquetada para futura correção.

Como se a Vida que acontece no momento estivesse errada.

Como se não existisse mais nada para além do guião que seguimos, mais nenhuma perspetiva, mais nenhuma forma de olhar para o momento.

Ao longo do tempo, devido a esta busca da falha para a correção, vamo-nos tornando menos genuínos, mais apagados, cheios de condicionamentos.

E será que a Vida que acontece no momento está errada?

Ou será que, em vez de questionar porque é que falhei e porque é que isto me está a acontecer a mim, eu posso questionar o que aprendi durante o processo, o que ganhei e o que deixou de fazer sentido?

Como seriam os meus dias se sentisse que o que acontece no momento traz algum ensinamento para mim?

Poderá existir algo de errado no que acontece no momento desta forma?

O Não respeitável

Prefiro pessoas pouco transparentes ao meu redor, para que eu me sinta feliz apenas porque todos fazem o que desejo?

 

Quantas vezes durante a semana eu digo um não respeitável?

E o não respeitável é aquele não que é dito com medo do que o outro possa ficar a pensar de mim.

É o não que se diz quando achamos seguro em negar o que o outro nos está a pedir.

É um nãozinho, que parece que não vai prejudicar ninguém.

Porque, o que é que aconteceria se eu dissesse não, independentemente do que o outro pudesse ficar a pensar de mim?

Como seriam os pensamentos seguintes a um não que me respeita, pelo facto de dizer sim a mim? Sim ao que eu desejo neste momento, e que pode não ir ao encontro do que o outro deseja?

Como seriam os meus dias, ao parar para escutar o que me faz sentido no momento, e responder de acordo a essas orientações, em vez de dizer que sim apenas para que o outro não pense mal de mim?

E como seriam os dias, ao perceber que o outro também responde sim ou não, sendo verdadeiro consigo próprio e comigo, independentemente do que desejo no momento?

Será que quero que quem está à minha frente diga sim apenas para me agradar?

Ou será que prefiro que o outro seja verdadeiro consigo e comigo, dando respostas de acordo com a sua essência?

Prefiro pessoas pouco transparentes ao meu redor, para que eu me sinta feliz apenas porque todos fazem o que desejo?

Ou prefiro pessoas cristalinas e que se respeitam, mesmo que tenham atitudes independentes da minha vontade?

E se a resposta que faz sentido é a que diz que gosto de pessoas verdadeiras e cristalinas, posso eu dar os primeiros passos para respostas autênticas e de acordo com a minha essência, em vez de sins ou nãos respeitáveis, respeitando também o outro de atitudes independentes da minha vontade?

E não existem respostas certas. Apenas respostas que podem fazer sentido.

 

(Dedicado à querida R que, apesar de não gostar de chá, já bebeu várias canecas até conseguir dizer um não respeitável.)

Ser melhor

Deixar de julgar pode ser aquele estado mental em que não luto contra o que está a acontecer, mas sim que paro para prestar atenção ao momento presente.

 

Parece que passamos muito tempo a ouvir/ler/pensar que podemos ser melhor do que somos. Podemos ser melhores pessoas, melhores progenitores, melhores profissionais, utilizando um conjunto de técnicas, fazendo um esforço maior do que já fazemos ou trabalhando para atingir um Eu mais perfeito.

Trabalhamos dessa forma para deixarmos de ser a lagarta e passar a ser a famosa borboleta, como se existisse algo de errado na fase de lagarta, como se fosse apenas um meio para atingir um fim.

E o que é isto de ser melhor pessoa?

Será que pretendo ser melhor com os outros, colocando-me em situações onde me forço a dizer sim a experiências, quando na realidade vou contra o que desejo?

Quando acredito que posso ser melhor do que sou neste momento, estou a acreditar que existe algo de errado e que tem de ser modificado, retificado, alterado, corrigido para algo que se considera ser melhor.

E como conseguirei ser melhor do que sou agora, se não gosto de algo em mim que existe neste momento, se rejeito uma parte de mim?

Como consigo melhorar algo que não aceito neste momento?

Na minha experiência, a Vida tem tendência a repetir situações até que aprenda as vantagens desse contexto e fique em paz com ele.

E se luto contra algo que faz parte de mim, esse pedaço vai fazer-se ouvir em situações repetidas, até que eu escute finalmente que não existe nada neste momento que não me possa trazer vantagens, mesmo que essas vantagens estejam em formato de aprendizagem.

A minha experiência diz-me que existe algo no meu atual Eu que me ajuda e me torna completa, mesmo que eu não compreenda o porquê neste momento.

Em boa verdade, mais do que compreender, se eu parar para ouvir o que me incomoda e que me causa desconforto, e se questionar o que na realidade está a ser dito, possivelmente poderei integrar essa situação que julguei durante tanto tempo como desconfortável e ficar em paz com ela.

Quando integro o que rejeitei em mim no passado, não me torno uma melhor pessoa. Torno-me uma pessoa completa.

E quando sou uma pessoa completa, deixo cair os julgamentos relativamente a mim e aos outros.

E ao deixar de julgar, será que existe algo para ser melhorado neste momento?

Deixar de julgar não significa ficar inerte e fazer nada.

Deixar de julgar pode ser aquele estado mental em que não luto contra o que está a acontecer, mas sim que paro para prestar atenção ao momento presente.

Permitir acontecer

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

 

A vida acontece sem necessidade de qualquer permissão. Os acontecimentos sucedem-se sem que tenhamos de dar autorização ou validar seja o que for.

E quando funcionamos fora deste fluir, acreditando que temos de lutar pelas coisas e que somos responsáveis pelas eventualidades, criamos resistência, ansiedade e, por vezes, muita dor.

Permitir acontecer, é deixar fluir os acontecimentos sem julgamentos ou etiquetas. É sentir que nada do que possa fazer neste momento pode alterar o que a vida pretende, e perceber que posso parar para ouvir e respirar o que o momento me diz.

Permitir acontecer não é deixar de desejar algo no futuro, mas sim desejar e deixar acontecer o que tiver de acontecer. E, se não for esse o caminho, é porque a experiência a viver não passava por aí.

Permitir acontecer não é ficar impossibilitado de pensar no passado, mas sim deixar que esses pensamentos nos visitem e possam ir embora. E se vier uma tristeza ou uma alegria, sentir essa emoção.

Permito acontecer quando estou neste momento, sem forçar os acontecimentos, sem achar que a vida é injusta porque não me dá o que acho que preciso, sem julgar o outro apenas porque tem experiências diferentes da minha.

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

Quando aprendo a desmontar as histórias da mente e deixo de lhes dar a importância passada.

E, no início, pode não ser um processo fácil, porque tenho primeiro de permitir-me ser vulnerável perante mim e os outros. Porque entendo que, se quero que os outros sejam gentis, não espero que isso aconteça e que a gentileza começa em mim, sem necessidade de retorno do outro.

Aos poucos, permito que aconteça a alegria em mim, independentemente de algumas pessoas à volta não estarem alegres. Apenas compreendo que somos pessoas com experiências diferentes e que posso ficar ou afastar-me.

Eventualmente, sinto a vida a viver-se através de mim. Não sou eu que tenho as ideias para escrever um texto, mas são as ideias que surgem, não se sabe de  onde e também não importa.

Sou sim o veículo através do qual se permitiu que o texto acontecesse.

E pode entretanto surgir mais outra ideia ou não.

Não como uma marioneta da qual são puxados os fios do seu movimento, mas sim como um ouvinte, que dá mais atenção aos pequenos detalhes e sussurros, que sugerem o caminho, pelo qual eu posso sempre deslocar-me ou não.

Permitir acontecer é simplesmente estar aqui.

A rapariga que queria que todos gostassem dela

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

 

Apesar do texto estar escrito no feminino, pode também ser lido no masculino. Independentemente do género, acreditamos muitas vezes que existe algo de errado em nós.

Neste caso, a rapariga recordava desde sempre acreditar que existia algo de errado consigo, e fazia os possíveis para que tudo o que fizesse não fosse menos que perfeito.

Não era um acreditar consciente, mas as suas ações para consigo e para com os outros revelavam muito das suas crenças.

As sensações que derivavam desse acreditar, levavam-na a ser alguém mais contido perante algumas pessoas ou situações e, por vezes, faziam com que se sentisse desenquadrada, que era alguém inferior e que estava sempre a fazer asneiras.

Mesmo com pessoas próximas, e apesar das atitudes serem mais naturais, ocasionalmente as circunstâncias faziam com que a rapariga que queria que todos gostassem dela se retraísse e alterasse alguns comportamentos.

Quando cresceu, a rapariga adotou uma maneira de estar mais reservada, atenta ao que o outro poderia estar a pensar dela e das suas atitudes, muito em especial nos relacionamentos.

Em certas situações, deixava de haver espontaneidade, para dar lugar ao silêncio ou às atitudes ponderadas, para que tudo fosse perfeito, nada falhasse e todos gostassem da rapariga, pois um dos seus maiores medos era o de ser inconveniente para com o outro.

Contudo, e por mais que tentasse, os outros mostravam-lhe muitas vezes que não gostavam do que ela fazia, que ela estava sempre a fazer asneiras e que não era merecedora de ser reconhecida.

A frustração e a ansiedade passaram a ser uma presença constante no seu dia-a-dia, e cada vez mais a rapariga que queria que todos gostassem dela sentia que nada do que pudesse fazer iria mudar a opinião que os outros tinham de si.

Até que algo de mágico aconteceu.

A frustração e a ansiedade cresceram de tal forma, que pareciam ocupar todo o momento presente. E, perante tanta dor, a rapariga sentiu necessidade de fazer algo para mudar todas estas sensações.

De início, foi difícil olhar para dentro e para tantas sensações das quais desejava fugir.

Mas, à medida que essas histórias eram olhadas de outra maneira, foram caindo por terra, dando lugar a outras histórias vindas de uma maneira de estar muito mais observadora.

A rapariga cresceu um pouco mais, não no seu exterior, mas no seu interior, ao olhar para cada história que ia surgindo e para as fábulas vindas do passado, onde ela acreditava que algo de errado existia consigo.

O julgamento a si e ao outro deram lugar a uma maior serenidade.

A rapariga concluiu que era ela que não gostava de algumas partes de si e, quando alguém lhe chamava a atenção para alguma coisa que fazia ou uma parte de si própria, essa chamada de atenção magoava, porque a rapariga acreditava que era verdade, por mais que tentasse esconder.

Afinal de contas, se o outro mostrava que algo estava errado e se ela achava que sim, o outro apenas validava a sua história.

À medida que foi crescendo no seu interior, ficaram as experiências para serem partilhadas com quem as quiser ouvir.

Ficou o agradecimento por todos aqueles que mostraram à rapariga que nada de errado existe consigo, e que os outros só nos magoam se acreditarmos no que eles estão a dizer.

Muitos passaram e foram embora. Outros ficaram e novos ainda surgiram. E está presente a gratidão por este grupo que partilha as histórias atuais. Eles mostram todos os dias que os julgamentos e as crenças do passado estão muito mais ténues.

E as atitudes do outro podem ou não fazer sentido. Mas mais que fazer um julgamento, a rapariga pode afastar-se, permitindo que se instale o respeito por si e pelo outro.

E a rapariga aprendeu que não precisa que todos gostem dela. Basta que ela própria goste de si, tal como é.

 

Comunicar no silêncio

É quando comunicamos connosco no silêncio exterior, que conseguimos chegar à origem do ruído interior.

 

Sentimos muitas vezes necessidade de dar resposta ao outro, ao que o outro me questiona e pede de uma forma quase imediata.

Gostamos de ter a “resposta na ponta da língua”, e pedimos aos que nos rodeiam que nos respondam rapidamente, para respondermos de seguida.

Mas será que ouvimos o que o outro nos diz?

Será que nos ouvimos através destas respostas imediatas e “cheias de razão”?

Se me questionar sobre o que me faz ter necessidade de ter razão e de dar estas respostas, o que poderá estar na sua origem?

Quando sinto desconforto no silêncio e na falta da resposta imediata, quais as histórias que estão a ser contadas na minha mente?

Qual o discurso que surge: “eu/o outro deveria fazer…” “eu preciso de…”?

Que tipo de sensações estou a esconder na resposta imediata e na necessidade de ter razão?

É na quietude que encontro o caminho para as respostas possíveis que nos conduzem a um maior conhecimento dos nossos gatilhos e do que nos move de forma automática.

É quando comunicamos connosco no silêncio exterior, que conseguimos chegar à origem do ruído interior.

E o que é aparentemente simples de se fazer, parece na realidade ser muito complicado: estarmos em silêncio e ouvir as histórias que vão acontecendo na mente.

Até que se torna num mecanismo útil e nos faz desligar os gatilhos vindos das histórias da mente.

E provavelmente as histórias irão continuar a surgir. Mas muda a forma como olhamos para elas e as deixamos ir.

Não preciso de deixar o outro a falar sozinho, mas posso sempre informar que vou pensar sobre o assunto.

Comunicar no silêncio poderá ser a ferramenta para desligar gatilhos que nos conduzem a reações automáticas e para encontrarmos uma maior serenidade interior.

Deserto de pensamentos

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

 

Recordo dos tempos em que já não suportava a conversa incessante a acontecer na mente.

Dos pensamentos que vinham e das histórias que aconteciam logo de seguida e de forma permanente.

Recordo das narrativas intermináveis que aconteciam na mente e que me deixavam muito ansiosa e sem capacidade de reagir ao que estava a acontecer no momento de forma distante.

Ao fazer este trabalho de educação emocional, algo começou a mudar dentro das histórias. Deixaram de ser tão intensas e tão frequentes.

Dei por mim a ter o que chamava de ilhas de serenidade na minha mente.

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

Também lhe chamava um deserto de pensamentos – espaço mental onde nada de especial acontece e apenas existe o presente.

E depois lá vinham os pensamentos que davam origem às histórias e tudo voltava outra vez.

Não com tanta intensidade, mas lá estavam presentes, juntamente com o que estava a acontecer.

Aos poucos, e à medida que questionava as narrativas do passado ou as histórias do futuro e encontrava o que traziam de útil para mim, fui ficando mais confortável com todos os pensamentos presentes.

Deixei de desejar não pensar sobre os assuntos, para parar e pensar sobre a verdade dos mesmos. “O que é que este pensamento diz sobre mim?” “Qual a história que estou a contar na minha mente que me faz sentir desconfortável?” “Onde é que aprendi este desconforto?”

Aprendi que questionar os pensamentos que surgem é uma ferramenta eficaz para dar espaço às ilhas de serenidade.

Eu não preciso deixar de pensar. Posso sim pensar sobre estas histórias que penso sobre mim, questionar se são verdadeiras e onde é que as aprendi.

O deserto de pensamentos deriva do processo de questionar esses mesmos pensamentos.

E quando encontro as vantagens dos mesmos, eles vão embora.

Vestir emoções

Se não julgar as emoções e as suas expressões que surgem, elas ficam presentes para me chamar a atenção de algo que é meu no momento e depois vão embora.

 

Neste momento tenho um sorriso vestido.

Se começar a pensar porquê, surgiu quase do nada, vindo de uma alegria.

E aqui está ele, sem justificações coladas ou necessárias. Apenas está.

E pode ficar durante algum tempo, ou pode desaparecer para dar lugar a uma lágrima ou um grito.

São todas expressões válidas para vestir, como formas de representar emoções.

E não quer dizer que este sorriso represente sempre uma alegria ou que o grito represente raiva.

As expressões podem trocar de lugar entre si, com sorrisos tristes e gritos de alegria.

Sem qualquer necessidade de justificar seja o que for, surgem as emoções e as suas manifestações diversas, que dão lugar às emoções e manifestações que vêm a seguir, num ciclo onde não existe esforço, mas sim fluidez.

Se não julgar as emoções e as suas expressões que surgem, elas ficam presentes para me chamar a atenção de algo que é meu no momento e depois vão embora.

E são todas válidas e fazem parte de mim.

Experimente prestar apenas atenção à emoção e à sua expressão presente no momento.

Veja agora quais os pensamentos que surgem relativamente a essa emoção e à sua expressão.

É um julgamento do tipo “não deveria sentir isto” ou “preciso sentir de outra forma”?

Posso sempre questionar quando tenho pensamentos que julgam. Será que são verdade? E qual a origem desse julgamento?

E posso também verificar a utilidade da emoção e da sua expressão.

Eventualmente, posso aprender mais sobre mim, e compreender que, na verdade, cada emoção e cada expressão são válidas e podem trazer mais uma mensagem de mim e para mim.

Que emoção tem vestida neste momento?

O equilíbrio desequilibrante

E, surpreendentemente, à medida que o tempo passa, quanto mais eu busco esse equilíbrio, mais as situações se tornam frustrantes e mais se desequilibra o dia-a-dia.

 

Parece que por vezes somos bombardeados pelo exterior sobre a necessidade de termos uma vida mais equilibrada.

Tenho de trabalhar menos, tenho de ter um relacionamento, tenho de ter um emprego, tenho de ter filhos, tenho de ser mais magro, tenho de ter mais qualquer coisa para que a vida atual possa fazer mais sentido.

Surgem questões sobre supostos desequilíbrios que existem e cujos aspetos têm de ser melhorados, para que a minha vida possa passar para outro nível.

E lá vamos nós, em busca de algo que nos disseram (ou que lemos algures) que falta na nossa vida e que acreditámos ser verdade.

Ou aprendemos bem lá atrás que existem coisas que têm de estar presentes para sermos felizes.

Supostamente, sem esses elementos, somos pessoas incompletas e temos vidas imperfeitas.

E, surpreendentemente, à medida que o tempo passa, quanto mais eu busco esse equilíbrio, mais as situações se tornam frustrantes e mais se desequilibra o dia-a-dia.

Até aprender a olhar para o que existe no momento, tenho dificuldade em parar para questionar sobre essas supostas necessidades e sobre essas listas das quais temos de picar todos os pontos para que nos encontremos felizes para todo o sempre.

E onde se encontra o meu equilíbrio?

Encontra-se exatamente aqui, neste momento.

Inclui todas as coisas que achei que deveria ter e não tenho, tal como as que considerei que deveriam desaparecer e aqui estão.

A diferença?

Reside na forma como reajo a todas estas necessidades que consideramos impostas pelos outros ou autoimpostas.

Posso continuar a acreditar que preciso de algo para ter equilíbrio, ou posso questionar aquilo em que acredito.

Posso questionar todas estas supostas verdades e parar para ouvir as respostas. Não as respostas dos outros, mas as minhas respostas.

Será que isto é verdade?

Posso continuar a acreditar que sim, que preciso de mais coisas neste momento para ter equilíbrio.

Mas dei-me tempo para olhar para o que aqui vai.

Se parar o suficiente, posso até chegar à conclusão que neste momento tenho tudo o que necessito.

E, se assim for, será que ainda tenho necessidade de mais equilíbrio?

Não sei, eu não vi

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

 

Sou por vezes questionada sobre o facto de ter tempo para fazer tantas coisas ao mesmo tempo.

Em boa verdade, as coisas não são feitas ao mesmo tempo, mas uma de cada vez e conforme o tempo disponível.

Mas pensando um bocado sobre o assunto, não costumo perder tempo com as questões dos outros, a não ser que me peçam para tal.

Nunca perdi muito tempo a dedicar-me à vida alheia e, quando me pedem opinião sobre o assunto, eu não sei o que dizer, já que não estou dentro da vida do outro, pelo que não me desgasto com essas questões.

E este tempo é aproveitado para me dedicar a algo que gosto e que dá prazer ou a algo que está por fazer e é útil que fique resolvido.

Dedicar-me ao que está a acontecer no momento também tem grande utilidade, em vez de me dedicar ao passado ou ao futuro.

Nesta parte já fui muito habilidosa e já dediquei muito tempo a construir histórias mentais, que apenas serviam para consumir tempo e energia.

E hoje em dia, todo este tempo que está à disposição é na sua maior parte utilizado para o que acontece no momento, e para o que me diz respeito.

Se não tem a ver comigo ou se não está a acontecer, é provável que dedique pouca atenção.

E sim, gosto de planear coisas para o futuro mais próximo ou mais longo. Pensamentos do tipo acontecem: “Apetece-me crepes para o jantar e quero ir comprar coentros para o recheio.”

E se não houver coentros? Logo se vê. Faz-se qualquer outra coisa.

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

Não se canaliza atenção e energia para algo que não existe e não está a acontecer.

E o tempo disponível é utilizado para outras coisas. Para me dar atenção, para dar atenção ao que gosto, para dar atenção aos que estão presentes no momento.

Não sei, eu não vi, liberta-me a atenção do que está no exterior, para que possa olhar para o momento atual que existe para mim.