Aquivo do autor: anapifre

O farol

E sim, é bom termos um farol que nos guia, não de forma inflexível, mas sim um farol que se ajusta à medida que o que nos rodeia vai mudando. Um farol que se adapta às marés e aos ventos.

 

Por vezes achamos que perdemos a orientação, que perdemos o norte.

Parece que nada lá fora nos ajuda a sentir aquela sensação de pertença, de estar num caminho, de ter objetivos definidos.

Como se fosse necessário ter uma linha orientadora para me sentir confortável ou em paz. Para sentir que está tudo bem e que sou merecedor de estar aqui.

E quando essa impressão desaparece ou sentimos que os outros conseguem saber para onde ir de uma forma que não consigo?

E quando a orientação que parecemos seguir nos leva ao que aparenta ser um sítio do qual não conseguimos sair?

Será que precisamos mesmo de ter estas orientações tão bem definidas?

Se acreditamos que precisamos de uma linha orientadora estruturada e imutável, onde julgamos errado tudo o que acontece fora dessa orientação, eventualmente surgirão muitos momentos frustrantes.

Existe o planeamento, onde tencionamos fazer algo no futuro e, se acontecer de maneira diferente, vamos ajustando à medida, de forma flexível, e existe a programação milimétrica da vida, que conduz muitas vezes a frustrações, ansiedade e birras quando as coisas não estão a acontecer conforme o que foi projetado.

E sim, é bom termos um farol que nos guia, não de forma inflexível, mas sim um farol que se ajusta à medida que o que nos rodeia vai mudando. Um farol que se adapta às marés e aos ventos.

E, no final, poderemos eventualmente concluir que chegámos onde era preciso chegar, sem os dramas da inflexibilidade e da rigidez.

Na verdade, os finais são muito semelhantes.

Os temperos

E posso sempre afastar-me desse sabor muito mais em paz, sem que ele fique permanentemente registado como um algo de negativo, mas sim como algo que trouxe uma aprendizagem e que já está lá no passado.

 

São os pensamentos que trazem as sementinhas dos temperos de cada momento.

Aquele pensamento que é a origem daquela alegria, é semelhante àquele pensamento que origina aquela tristeza, apenas com o resultado diferente.

Contudo, parecemos muitas vezes focados nos pensamentos que trazem o doce ou o salgado, que pomos de parte os restantes sabores que ajudam a degustar melhor esses mesmos sabores.

Como seria o prato do dia-a-dia se apenas sentisse um determinado sabor ou aroma?

Será que teria a perceção do que esse sabor me faz sentir, se fosse sempre igual?

Ou será que me cansaria por estar em contacto permanente com o mesmo gosto?

Quando estou a tentar não pensar em determinados assuntos (tentando sempre manter aqueles pensamentos positivos), acabo por rejeitar outros temperos que poderiam conduzir a outras formas de vivenciar o presente.

Posso não gostar deste tempero, mas o que acontece quando lhe acrescento outros sabores?

Que é como quem diz, este pensamento é origem de emoções que me desagradam, mas se continuar a afastá-lo, eventualmente não conseguirei olhar para essas emoções e ficar em paz com as suas origens.

E quando fico em paz com as origens que me desagradam, não significa que aceito todos os sabores e que permito tudo. Significa apenas que essas origens já não tocam da mesma forma e não reajo de maneira automática.

E posso sempre afastar-me desse sabor muito mais em paz, sem que ele fique permanentemente registado como um algo de negativo, mas sim como algo que trouxe uma aprendizagem e que já está lá no passado.

De que forma costuma dar tempero ao momento presente? Já parou para pensar?

São histórias senhores! São histórias!

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

 

E aquelas maluqueiras que nos atacam logo pela manhã, quando estamos ainda muito ensonados, e nos deixam logo num verdadeiro estado de tristeza ou ansiedade?

Algumas surgem diretamente do passado, quando ficamos a matutar sobre o que aconteceu e não deveria ter acontecido.

Outras vêm de um futuro que não existe (o futuro é assim mesmo), e atormentam-nos de forma compulsiva, quando alimentamos estas histórias sobre o que deveria ou não ocorrer.

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

Não paramos para respirar fundo e para olhar em volta. Não paramos para perceber que, afinal de contas, existe o aqui e agora e existem as histórias que estão a desenrolar-se na minha cabeça.

E o que faz a diferença é a forma como acreditamos ou não nessas histórias.

Tal como no outro dia, quando me atrasei mais de uma hora para ir buscar o filho. Aparentemente ele estava acompanhado e nada indicava que algo estava mal, mas a ansiedade começou a crescer fortemente.

Curiosamente, antes de entrar nesta história de estou atrasada e tenho de me despachar, questionei porque é que sentia tanta ansiedade e o que era o pior que poderia estar a acontecer naquele momento.

Fez-se luz no momento em percebi que efetivamente o que estava a acontecer naquele momento era uma viagem de automóvel e que o resto não era real.

Respirei fundo, aproveitei aquela viagem e, quando cheguei ao pé do filho, ele estava tranquilo, bem-disposto e estava tudo bem.

Sem histórias e sem dramas sobre o que acontece, a vida parece fluir de maneira diferente.

Na realidade, a vida continua como sempre esteve. Eu é que a observo com outra perceção.

E este processo é gradual e vai sendo experienciado ao longo do tempo, se assim o entender.

Mas quando o faço, o que acontece ganha outro aroma. Ganha o aroma da tranquilidade e da disponibilidade para o que realmente está ali naquele momento.

 

Comparativa mente

Não importa se gostamos ou não ou se nos faz sentido. Parece que apenas é importante termos igual ou melhor do que o outro.

 

Comparamos.

Uma parte dos nossos pensamentos do dia a dia é muitas vezes aplicado em comparações.

Comparações sobre o que o outro tem ou achamos que é, sobre o que eu já tive ou poderia ter.

Mas tendo em conta o facto de aprendermos como funcionar emocionalmente durante a infância, de onde vem este comportamento?

Quantas vezes ouvimos dizer em criança que o/a filho/a da vizinha/prima/irmão tem ótimas notas e que poderíamos aplicar-nos para fazer o mesmo?

Não importa se gostamos ou não ou se nos faz sentido. Parece que apenas é importante termos igual ou melhor do que o outro.

E crescemos assim, a aprender a fazer comparações. A sentir que não somos suficientes. Que o outro é melhor do que nós.

Em adultos, quantas vezes nos perguntam quando é que arranjamos emprego/casa/ companheiro/a ou temos filhos?

E quantas vezes perguntamos isso aos outros ou a nós próprios?

Mas será que estas comparações são úteis? Será que fazem falta?

Quais os pensamentos que se seguem a uma comparação? Não aquela comparação que até faz surgir pensamentos do tipo “eu sinto que estou na média ou que sou melhor do que o outro”, mas aquela comparação que me faz sentir deslocado, diferente, inferior?

Será construtivo sentir que sou melhor ou pior do que quem me rodeia? Serve para alguma coisa?

Para quê passar parte do meu tempo a viver a vida do outro e a tentar ser igual ou melhor, quando posso canalizar todo esse tempo a viver a minha vida, que é aquela que realmente pode fazer a diferença para mim?

Podemos deixar de dar tanta atenção ao que acontece no exterior e na vida do outro.

E quando surgir um pensamento comparativo, posso sempre questionar se é útil continuar a alimentar esta história ou se, por outro lado, será mais útil olhar para dentro, para as minhas características únicas.

Inspiro…expiro…questiono… e eventualmente as comparações deixam de estar tão presentes na minha vida, para dar lugar a uma maior curiosidade sobre o que acontece no aqui e agora.

Tiro ao alvo

Fazemos tiro ao alvo e esquecemos que é apenas uma probabilidade. Posso acertar ao lado, como posso acertar onde gostaria.

 

Muitas vezes sentimos necessidade de viver de acordo com objetivos estabelecidos.

Supostamente, temos de saber o que fazer e onde estar daqui a 6 meses, 2 anos, o resto da vida.

E quando não atingimos esse objetivo, sentimos a frustração de definir algo e que não podemos ter nesse momento.

Outras vezes, sentimos que parece que todas as pessoas à nossa volta têm objetivos e sabem o que fazer exceto nós.

Eu deveria ter objetivos, eu deveria saber para onde ir, como se fosse eu a decidir a vida e tudo o que acontece.

Durante este processo, não prestamos muitas vezes atenção ao que está a acontecer, neste momento, no aqui e agora. Estamos tão focados no hipotético alvo, que nos esquecemos que estamos aqui, a respirar, e que está tudo bem.

Não porque nos sentimos felizes, mas porque temos muito mais do que percecionamos, muito mais do que damos conta.

Fazemos tiro ao alvo e esquecemos que é apenas uma probabilidade. Posso acertar ao lado, como posso acertar onde gostaria.

E o importante não é receber exatamente o prémio por ter acertado. O importante é, na realidade, toda a experiência vivida, a qual se intensifica à medida que presto mais atenção ao que está a acontecer, em vez de prestar atenção ao que pode acontecer lá à frente.

E quando presto atenção ao aqui e agora, deixa de ser importante se os outros têm objetivos e se sei o que fazer daqui a 2 anos.

Em boa verdade, posso deixar a Vida fazer acontecer e posso respirar fundo e, tranquilamente, observar a paisagem.

A especialização

E mostramos aos outros que é importante seguir por este caminho, mesmo que doa, mesmo que não nos faça sentir que é por aqui.

 

De início, as emoções e as experiências que dispomos são imensas.

Reagimos com curiosidade ao que está ao nosso redor e ao que vai acontecendo, sem etiquetas e sem catálogo. Acontece apenas.

Vamos entretanto criando o nosso catálogo, de acordo com o que nos vão dizendo que é bom ou mau e o que devemos ou não fazer.

De acordo com o que quem nos acompanha aprendeu anteriormente.

E transmitimos crenças e valores que acreditamos serem absolutos, muitos deles sem que tenhamos alguma vez pensado se correspondem à realidade.

“É assim porque aprendi desta forma, e porque a vida me mostrou que esta é a verdade absoluta.”

E de um universo de experiências e emoções à disposição, vamo-nos especializando.

“Não quero vivenciar mais esta experiência porque me faz sentir algo que acredito que não gosto.”

Ao longo do tempo, vou afunilando as vivências, muitas vezes num sentido que não desejo, mas que me governa por ser aquilo em que acredito de forma inconsciente.

As vivências que me comandam, não são muitas vezes as coisas boas que acredito que posso conseguir se me esforçar muito, mas sim as que aprendi lá muito atrás e não questionei ainda.

São as vivências onde me especializei: não sou capaz, não sou importante, não sou merecedor.

Especializamo-nos sem saber como nem porquê.

E mostramos aos outros que é importante seguir por este caminho, mesmo que doa, mesmo que não nos faça sentir que é por aqui.

E porquê?

Também não perdemos tempo a questionar muitas vezes.

Questionamos sim o porque é que nos sentimos mal sem ir à raiz.

Percebi há uns tempos que me especializei demasiado. Mas neste momento, aprendo todos os dias a ganhar a diversificação. E sinto por vezes que existe um longo caminho a percorrer de volta ao momento em que tudo está ao dispor.

Ou não, e já está tudo aqui, neste preciso momento.

Aos poucos

Aos poucos, vou colecionando formas diferentes de olhar para o mesmo cenário e para o que me envolve, e algumas circunstâncias deixam de fazer sentido.

 

Não existem pílulas mágicas que me retirem anos de crenças que magoam e limitam.

Não existe aquela ferramenta que utilize uma ou duas vezes e me deixe a sentir a vida de maneira diferente e em paz.

Por vezes, são os eventos mais dolorosos e dos quais quero fugir que me conduzem à procura de algo que me faça sentir diferente.

Ocasionalmente, tentamos as soluções mais rápidas e com resultados que se sintam de imediato. Contudo, a minha experiência mostra-me que estas soluções são apenas temporárias. E, em breve, tudo volta ao mesmo e ainda com o peso acrescido de mais uma tentativa que não mostra resultados.

Mas quando se decide olhar para dentro, aos poucos, a paz e a serenidade instalam-se, de forma a que eu consiga sentir o respirar fundo e a largar o que não interessa.

Demora tempo até atingir um patamar diferente dentro de mim. Demora tempo até olhar para as mesmas situações e perceber que não sinto as mesmas sensações e que o alívio é maior.

Aos poucos, vou colecionando formas diferentes de olhar para o mesmo cenário e para o que me envolve, e algumas circunstâncias deixam de fazer sentido.

Outras, parecem enquadrar-se e revelam-se. Mostram que sempre aqui estiveram, apesar de nunca lhes ter dado atenção.

Aos poucos, vou fazendo o caminho, tendo a perceção que faço o melhor que sei a cada momento. Tal como todos os que me rodeiam.

E não preciso de concordar ou de aceitar o que se passa. Posso apenas afastar-me se assim o sentir.

Aos poucos, a serenidade instala-se.

Amarrar os camelos

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

 

Gosto de histórias pequenas, de contos e de parábolas.

Gosto da forma como parecem conter tanta informação em tão aparentemente pouco espaço verbal ou de escrita

E uma das parábolas que utilizo muito em trabalho de educação emocional é a parábola que fala do mestre que pede ao seu discípulo para amarrar os camelos antes de irem para a pousada. No outro dia de manhã, os camelos tinham ido embora e, quando o mestre questiona o discípulo, este dia que colocou os camelos nas mãos de Deus, ao que o mestre responde, mas nós somos as mãos de Deus.

No outro dia, durante uma sessão, surgiu a ideia de comparar os camelos ao tempo que temos disponível para nós. Será que amarramos os camelos, estando presente para o que está a acontecer, ou será que deixamos os camelos ir embora, lamentando o que já aconteceu ou fazendo futurologia sobre o que não sabemos se vai acontecer.

Deixamos o tempo presente correr, muitas vezes sem olhar para o que acontece, limitando-nos a responder em modo automático, permitindo que parte do tempo abale sem darmos conta disso.

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

E isso, pode conduzir-nos às respostas que se encontram à nossa volta e que deixamos ir embora, pelo facto de nem sequer pararmos de vez em quando para as olhar.

E você, já amarrou os seus camelos hoje?

A alegria está em mim

A alegria está em mim, e não nas coisas que acontecem.

 

Todas as emoções estão em mim a todo o momento, independentemente de ter ou não essa noção. Tal como todo o nosso corpo a funcionar, sem necessidade de haver uma indicação consciente: coração tens de funcionar e agora os rins e os pulmões e por aí fora, todas as emoções estão contidas em nós em cada momento.

Contudo, tal como acontece quando temos uma dor ou uma sensação desconfortável, damo-nos normalmente conta das emoções quando algo acontece.

E se algo não acontece conforme desejamos, parece que a alegria, o contentamento e a serenidade vão embora.

Mas quando os acontecimentos fluem de acordo com o planeado, sentimos o que nos é agradável, como se estas sensações estivessem no exterior.

E esquecemos muitas vezes de que as emoções estão todas contidas em nós, pelo facto de reagirmos ao que está a acontecer, em vez de reconhecer que o que sentimos está cá dentro e não lá fora.

E quando nos encontramos em modo reativo, buscamos lá fora o que nos devolve as sensações que gostamos, como a alegria , a felicidade ou a serenidade.

Mas quando recordamos que tudo o que é sentido é nosso e se encontra no interior, acordamos para o facto de podermos voltar a sentir todas as emoções e sensações, sem a necessidade de replicar as experiências que me parecem trazer de volta sensações prazerosas.

E fico bem.

Não porque me estou a sentir sempre alegre e feliz, mas sim porque compreendo que as experiências do momento me fazem sentir emoções diversificadas, que residem no meu interior.

A alegria está em mim, e não nas coisas que acontecem.

E é tudo o que preciso para estar aqui e agora.

Às vezes

Generalizamos e fazemos por vezes grandes dramas sobre os assuntos quando aplicamos o “sempre” ou o “constantemente”.

 

Temos tendência a achar que estamos sempre deprimidos, sempre zangados, sempre com dores ou sempre com falta de dinheiro.

Generalizamos e fazemos por vezes grandes dramas sobre os assuntos quando aplicamos o “sempre” ou o “constantemente”.

Mas será verdadeiro o estar sempre desta forma?

Os será que damos conta de que estamos a repetir esta sensação quando não estamos distraídos?

Na verdade, será que estou sempre a sentir o mesmo de forma intermitente?

Não será mais verdadeiro o sentir “às vezes”?

Falava com uma amiga sobre estas sensações que acredita estar com uma depressão. Depois de algum tempo, a expressão “eu estou sempre deprimida”, passou para “por vezes estou deprimida”.

E não estou deprimida quando estou a dormir, quando estou distraída a conversar com alguém ou quando sorrio por estar entretida com alguma coisa.

E isto não significa que deva ignorar o que sinto ou que deva “deixar andar que isso passa”.

Mas se tiver consciência de que é impossível sentir da mesma maneira de forma permanente, pode ajudar a relativizar uma situação dolorosa e percecionar que sinto tristeza ou dor ou frustração e que também sinto outras sensações.

E quando reconheço que também tenho estas outras sensações, relativizo a situação e eventualmente isto pode ajudar a viver de forma mais completa e a experienciar também as restantes sensações de riso, alegria e serenidade com uma maior consciência da sua existência.

Às vezes, é mesmo muito útil.