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Pensamentos Incomodantes

(…) Esta rapariga começou a notar que as pessoas à sua volta também mudaram, pois somos todos espelhos daquilo em que acreditamos. Ela passou a respeitar-se mais enquanto pessoa, ao dizer não a diversas situações que não eram para ela, o que originou um maior respeito por parte das pessoas com quem trabalhava.

E o trabalho que se fez foi simples: apenas questionar os pensamentos que conduziam às suas atitudes e às dos outros.

Ao fazer o trabalho comigo e com outras pessoas, percebi que acreditamos em muitas ideias e pensamentos, sem que algum dia os tenhamos questionado. (…)

Retirado de “Pensamentos Incomodantes”

O outro lado das coisas

A perda, a dor, a frustração, estavam ali para mostrar que existe algo em todo este processo de aprendizagem.

 

Uma das ferramentas que me tem ajudado ao longo dos últimos anos, consiste em olhar para o outro lado que está a acontecer.

Olhar para a situação como se estivesse a olhar de fora.

Ou, quando não consigo estar de fora, tentar encontrar as vantagens dessa situação.

Por vezes, pode parecer impossível encontrar uma vantagem quando estou a caminho do hospital por alguma questão de saúde ou alguma dor, mas existe um hospital para onde ir.

E eu poderia estar sem qualquer tipo de apoio ou de assistência.

E existem pessoas que tomam conta de mim.

E a questão ou a dor continuam a existir, tal como a assistência e o apoio. E posso relativizar o que acontece e olhar para as diversas coisas que acontecem naquela altura, ou posso dramatizar a achar que tudo de mal me acontece e sou um coitadinho ou coitadinha.

Na realidade, posso reagir conforme me fizer sentido, sem que haja a forma correta de o fazer.

Existe apenas o que acontece no momento e os pensamentos que surgem sobre isso.

Posso fazer um drama ou observar o que acontece.

Na minha experiência, sempre que fiz um drama, a Vida ia mostrando a seguir que o pior poderia estar para acontecer.

Não como uma forma de penalização, mas como uma aprendizagem que mostrava que tudo é relativo.

A perda, a dor, a frustração, estavam ali para mostrar que existe algo em todo este processo de aprendizagem.

Quando aprendi a olhar para o outro lado do que acontece, passei a ter menos dramas a acontecer cá dentro, e a ter mais espaço para respirar e sentir o momento.

E a sensação pode não ser agradável, mas é sentida com muito menos carga emocional e mais como uma experiência.

Será que perco quando algo se afasta e me prejudica?

Ou será um benefício?

E se tudo o que existe neste momento saísse para dar lugar a novas situações?

Como poderíamos renovar, mantendo tudo na mesma?

A Vida mostra-nos o seu permanente movimento.

E o outro lado das coisas, permite-nos dar lugar à observação do que acontece e espaço para o que acontece no momento seguinte, liberto de dramas.

Permitir acontecer

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

 

A vida acontece sem necessidade de qualquer permissão. Os acontecimentos sucedem-se sem que tenhamos de dar autorização ou validar seja o que for.

E quando funcionamos fora deste fluir, acreditando que temos de lutar pelas coisas e que somos responsáveis pelas eventualidades, criamos resistência, ansiedade e, por vezes, muita dor.

Permitir acontecer, é deixar fluir os acontecimentos sem julgamentos ou etiquetas. É sentir que nada do que possa fazer neste momento pode alterar o que a vida pretende, e perceber que posso parar para ouvir e respirar o que o momento me diz.

Permitir acontecer não é deixar de desejar algo no futuro, mas sim desejar e deixar acontecer o que tiver de acontecer. E, se não for esse o caminho, é porque a experiência a viver não passava por aí.

Permitir acontecer não é ficar impossibilitado de pensar no passado, mas sim deixar que esses pensamentos nos visitem e possam ir embora. E se vier uma tristeza ou uma alegria, sentir essa emoção.

Permito acontecer quando estou neste momento, sem forçar os acontecimentos, sem achar que a vida é injusta porque não me dá o que acho que preciso, sem julgar o outro apenas porque tem experiências diferentes da minha.

A minha experiência, mostra-me que chego aqui e permito acontecer quando observo os pensamentos que estão no momento.

Quando aprendo a desmontar as histórias da mente e deixo de lhes dar a importância passada.

E, no início, pode não ser um processo fácil, porque tenho primeiro de permitir-me ser vulnerável perante mim e os outros. Porque entendo que, se quero que os outros sejam gentis, não espero que isso aconteça e que a gentileza começa em mim, sem necessidade de retorno do outro.

Aos poucos, permito que aconteça a alegria em mim, independentemente de algumas pessoas à volta não estarem alegres. Apenas compreendo que somos pessoas com experiências diferentes e que posso ficar ou afastar-me.

Eventualmente, sinto a vida a viver-se através de mim. Não sou eu que tenho as ideias para escrever um texto, mas são as ideias que surgem, não se sabe de  onde e também não importa.

Sou sim o veículo através do qual se permitiu que o texto acontecesse.

E pode entretanto surgir mais outra ideia ou não.

Não como uma marioneta da qual são puxados os fios do seu movimento, mas sim como um ouvinte, que dá mais atenção aos pequenos detalhes e sussurros, que sugerem o caminho, pelo qual eu posso sempre deslocar-me ou não.

Permitir acontecer é simplesmente estar aqui.

Não sei, eu não vi

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

 

Sou por vezes questionada sobre o facto de ter tempo para fazer tantas coisas ao mesmo tempo.

Em boa verdade, as coisas não são feitas ao mesmo tempo, mas uma de cada vez e conforme o tempo disponível.

Mas pensando um bocado sobre o assunto, não costumo perder tempo com as questões dos outros, a não ser que me peçam para tal.

Nunca perdi muito tempo a dedicar-me à vida alheia e, quando me pedem opinião sobre o assunto, eu não sei o que dizer, já que não estou dentro da vida do outro, pelo que não me desgasto com essas questões.

E este tempo é aproveitado para me dedicar a algo que gosto e que dá prazer ou a algo que está por fazer e é útil que fique resolvido.

Dedicar-me ao que está a acontecer no momento também tem grande utilidade, em vez de me dedicar ao passado ou ao futuro.

Nesta parte já fui muito habilidosa e já dediquei muito tempo a construir histórias mentais, que apenas serviam para consumir tempo e energia.

E hoje em dia, todo este tempo que está à disposição é na sua maior parte utilizado para o que acontece no momento, e para o que me diz respeito.

Se não tem a ver comigo ou se não está a acontecer, é provável que dedique pouca atenção.

E sim, gosto de planear coisas para o futuro mais próximo ou mais longo. Pensamentos do tipo acontecem: “Apetece-me crepes para o jantar e quero ir comprar coentros para o recheio.”

E se não houver coentros? Logo se vê. Faz-se qualquer outra coisa.

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

Não se canaliza atenção e energia para algo que não existe e não está a acontecer.

E o tempo disponível é utilizado para outras coisas. Para me dar atenção, para dar atenção ao que gosto, para dar atenção aos que estão presentes no momento.

Não sei, eu não vi, liberta-me a atenção do que está no exterior, para que possa olhar para o momento atual que existe para mim.

Quando estou bem comigo, estou bem contigo

É um estar bem porque sei que posso parar antes de responder e o outro também.

 

Parece simples, na verdade.

Mas aparentemente, passamos muito tempo a procurar lá fora o equilíbrio, para depois nos sentirmos bem, em vez de olhar para dentro para encontrar esse bem-estar, e depois ficar em paz com o outro.

Este estar bem comigo não significa sentir sensações positivas para todo o sempre, porque se for isso que busco, a insatisfação será quase permanente.

É um estar bem que me permite sentir todas as emoções e, se estiver desconfortável, permite-me dizer ao outro o que sinto e o que pretendo.

E se o outro não concordar, sei que são a opinião e a experiência do outro e que não temos de concordar.

É um estar bem porque sei que posso sentir alegria e tristeza, amor e raiva e que tudo faz parte deste estar aqui.

É um estar bem porque sei que posso parar antes de responder e o outro também.

E se sinto insatisfação e tristeza e raiva e dor, posso prestar atenção aos pensamentos que surgem e me conduzem a julgamentos sobre essas sensações.

Posso afastar-me e ficar comigo. Posso olhar para o que acontece na mente e no corpo e questionar.

É neste questionar que me encontro muitas vezes.

Será verdade o pensamento presente?

A história que estou a contar na mente está mesmo a acontecer?

E observo o que acontece.

Pode não acontecer nada.

E pode acontecer tudo.

Quando estou bem comigo, estou bem com o que me rodeia.

O que se encontra antes do Mas

Quando dou atenção ao que verbalizo, começo a ouvir na realidade o que estou a dizer e o que pretendo do outro.

 

Temos tendência a encontrar desculpas para nós e para os outros e, muitas vezes, nem damos conta do que estamos a fazer.

Somos questionados sobre algo e damos uma explicação mais ou menos longa, seguida de um “mas” e o raciocínio seguinte.

Em boa verdade, se prestarmos atenção ao que está a ser dito, provavelmente concluímos que tudo o que foi dito antes do “mas”, teve o objetivo de justificar algo, de mostrar ao outro que não fizemos nada de mal, e que somos boas pessoas. Mas o que está a ser dito a seguir é muito mais importante para mim.

Quando dou atenção ao que verbalizo, começo a ouvir na realidade o que estou a dizer e o que pretendo do outro.

Quero que o outro me veja como uma boa pessoa?

Quero justificar algo que me incomoda?

O que é que pretendo na realidade como aquilo que digo antes do “mas”?

Se começo a prestar atenção ao que eu digo, muito mais do que o que o outro diz, permito-me ouvir o que quero do outro e da situação.

Começo a olhar para dentro e para a forma como tento controlar o que acontecer.

Como costumamos dizer neste processo de educação emocional “como seria o meu dia se não necessitasse de me justificar?”

“Como seria um dia inteiro sem justificações, apenas prestando atenção ao que acontece na mente, quando não tento explicar ao outro o que aconteceu, e só pedindo desculpa, se necessário?”

O que é que eu pretendo com o que digo antes de um “mas”?

Já pensou nisso?

 

A paz que desejo provavelmente não existe

E se desejo lutar para obter a felicidade plena, poderei passar todo o tempo nesta guerra incessante e que dá trabalho e muito desgaste.

 

Queremos por vezes muitas coisas que achamos que não temos.

Queremos preencher o vazio, queremos lutar contra a insatisfação, queremos sentir uma felicidade plena.

E queremos paz para todo o sempre.

E é neste desejo de paz permanente que nos perdemos, porque nada é permanente e tudo se transforma.

Quando acho que encontrei finalmente o equilíbrio e que é para me manter ali, a vida dá mais uma volta e surge uma nova situação.

E posso ter reações diferentes perante estas mudanças. Posso tentar agarrar o que acho que está a ir embora, e tentar lutar para manter o que considero melhor para mim.

Ou posso parar para observar o que incomoda, para observar o desconforto que está ali para mim e para os pensamentos que surgem perante uma nova situação.

E se desejo lutar para obter a felicidade plena, poderei passar todo o tempo nesta guerra incessante e que dá trabalho e muito desgaste.

Mas quando paro para observar, presto atenção ao que existe para mim naquele momento.

E pode ser dor ou tristeza ou insatisfação. Pode ser uma guerra interior cuja origem é desconhecida.

Mas não sabemos o que é até parar.

E possivelmente, a paz que desejo pode não ser verdadeira.

Mas poderá existir uma paz que deriva da percepção de que o que acontece não é o que desejo, mas sim o que tem de acontecer.

 

O incómodo

E poderá ser que o outro deixe de incomodar, para passar a ser alguém que está presente e me ajuda a compreender melhor o que acontece dentro de mim.

 

Muitas vezes, quando a experiência que está a acontecer não é a que gostaríamos, temos tendência de tentar mudar os acontecimentos através do outro.

“O outro deveria mudar o comportamento” ou “se o outro mudasse eu responderia de maneira diferente” são exemplos de pensamentos recorrentes no dia-a-dia.

“O outro incomoda-me e deveria mudar para eu me sentir bem.”

E nem paro para pensar no porquê destes pensamentos, que são incontroláveis.

Não consigo parar de pensar (e se considero que controlo pensamentos, talvez seja melhor pensar outra vez) e também não consigo controlar o que o outro faz ou o que o outro pensa.

Durante este processo de facilitadora de trabalho de educação emocional, tenho tido experiências que me mostram que o outro, mais do que ser aquele que me incomoda, pode ser aquele catalisador para eu olhar melhor para o que acontece e para os pensamentos que surgem sobre isto.

Será que é o outro que me incomoda (coloco a atenção lá fora), ou sou eu que me incomodo com o outro (coloco a atenção cá dentro)?

E existe uma grande diferença entre querer que o outro mude porque me incomoda e sentir-me incomodado e tentar perceber porquê.

E isto não significa que os comportamentos dos outros sejam corretos e que tenha de os permitir.

Significa sim que existe algo que me deixa desconfortável e que posso questionar esse desconforto, sabendo que é meu.

Posso experimentar deixar surgir os pensamentos que incomodam sobre o outro e questionar “Quando foi a primeira vez que pensei isto sobre alguém?” ou “Quantas vezes senti este desconforto sobre outras pessoas?”

De que forma estas sensações e este desconforto me são familiares?

Como seria o meu dia-a-dia se fosse questionando os pensamentos que surgem, em vez de reagir automaticamente ao que me é colocado?

E poderá ser que o outro deixe de incomodar, para passar a ser alguém que está presente e me ajuda a compreender melhor o que acontece dentro de mim.

A preguiça

Permito-me olhar e perceber que não vale a pena manter e alimentar uma situação mais do que o necessário e que a vida irá resolver por si o que é para resolver.

 

Durante muito tempo lutei contra o facto de ser preguiçosa.

Necessitava de mostrar que estava sempre ocupada e a trabalhar, como uma formiguinha trabalhadora e dedicada.

Expressões do tipo “tenho de”, “preciso” e “deveria” eram bastante utilizadas para provar que era expedita, trabalhadora e muito, muito dinâmica.

Parece que nem permitia que as situações se resolvessem por si, ficando apenas uma parte essencial onde eu poderia intervir. Pelo contrário, eu tinha de “mostrar trabalho” e de resolver as questões.

O desgaste diário era por vezes muito grande, nestas rotinas sempre preenchidas e dedicadas a provar algo que nem tinha consciência do que estava a fazer.

Contudo, percebo agora uma grande vantagem em ser preguiçosa: quando paro para deixar que a situação tome o rumo que tem a tomar, permito que as soluções surjam sem desgaste e atrito com os outros.

O fluxo dos acontecimentos segue para onde tem de ir, e eu faço o que é para fazer, sem o cansaço de ter de provar algo seja a quem for.

Permito-me olhar e perceber que não vale a pena manter e alimentar uma situação mais do que o necessário e que a vida irá resolver por si o que é para resolver.

A preguiça pode ser considerada a mãe de todos os vícios, mas também nos pode tirar de muitas situações complicadas….

Pequenas coisas – grandes desafios

São aquelas pequenas situações do dia-a-dia que se juntam e nos questionam de que forma vamos continuar a lidar com elas.  São o acumular, são a estagnação e o que vou fazer a seguir.

 

A nossa mente produz grandes filmes que provavelmente nunca vão acontecer. Este processo faz parte da sua natureza, e é a atenção que damos a esses filmes que nos provoca a ansiedade e o stress, se acharmos que são verdadeiros e que estão ou podem vir a acontecer.

Pintamos vastos cenários, e consideramos grandes desafios que temos de enfrentar quando, na realidade, é quando nos deparamos com as pequenas coisas que podemos ter a perceção de estarmos ou não em paz com o que está a acontecer.

Mais do que o grande épico com que sonhamos ou temos medo de enfrentar, é na forma como olhamos para o colega da frente ou cumprimentamos as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias que reside o estado de serenidade ou não da nossa mente.

É neste pequeno momento que vai deixar de estar aqui para dar lugar a outro, que surgem os pensamentos desafiantes.

E é neste pequeno momento que consigo perceber se estou aqui e agora ou se estou a acompanhar pensamentos lá fora, no outro, no drama.

Os grandes desafios são muitas vezes estas pequenas coisas. O desafio diário de lidar com a família ou a solidão, com o trabalho ou a falta dele, com o trânsito, com os outros.

São aquelas pequenas situações do dia-a-dia que se juntam e nos questionam de que forma vamos continuar a lidar com elas.  São o acumular, são a estagnação e o que vou fazer a seguir.

E se acredito nas histórias que a mente conta sobre estas questões recorrentes, como é que reajo quando surgem os grandes imprevistos?

Eventualmente, se parar e prestar atenção em vez de reagir, poderei abrir espaço para questionar todos estes pensamentos.

E, à medida que avanço neste processo de observador, poderá surgir a gratidão de estar presente para o que acontece, sem necessidade de mais histórias.