Arquivo de etiquetas: educação emocional

A Escuridão que Ilumina

Apenas não sabíamos que somos todos completos, que todas as características são úteis em determinadas situações, e que sou igual ao Outro.

 

Na minha experiência, temos tendência a querer ser sempre luminosos, que é como quem diz, fazermos sempre o bem, o que é certo e bonito, desejando chegar a um dia em que vivemos felizes, em paz e em serenidade para todo o sempre.

Mas, durante este processo de busca da iluminação, colocamos de parte o que nos incomoda e o que é considerado de obscuro, deixando determinadas características de parte, escondendo dos outros e de nós próprios o que perturba, e acusando muitas vezes o Outro de ser o que queremos esconder.

Curiosamente, o nome dado pela mentora Debbie Ford  a esta ferramenta de educação emocional com a qual trabalho, foi exatamente de Sombra Humana.

Consiste num processo gradual de olharmos para o que consideramos mais escuro em nós e, durante esse processo, resgatarmos o que consideramos mau, errado e feio.

É durante este resgate que nos tornamos completos, que tomamos conta da relatividade das histórias que contámos até então, e que afinal de contas são apenas histórias e que já não as estamos a viver neste momento. Elas apenas existiram na nossa mente.

E é a olhar para a escuridão que nos atormenta que ficamos mais iluminados. Não porque vamos viver felizes para todo o sempre, mas porque percebemos que não existe nada de errado, de feio ou de mau connosco.

Ou com o Outro.

Nem nunca houve.

Apenas não sabíamos que somos todos completos, que todas as características são úteis em determinadas situações, e que sou igual ao Outro.

E provavelmente, este processo de nos tornarmos completos acompanha-nos até passarmos para o outro lado. Vamos descobrindo de vez em quando mais uma característica ou situação com a qual vamos ficando mais em paz.

A Escuridão Ilumina e na minha experiência, ilumina muito.

A vida acontece a cada momento

Posso dar início a um processo de questionamento, onde fico mais presente para mim e para o que está a acontecer.

 

A vida acabou de acontecer mesmo agora. E aqui está ela, neste momento. E eventualmente estará ali à frente mais daqui a pouco. Mas será que tenho consciência disso? Ou será que passo a maior parte do tempo com preocupações futuras e com medos vindos do passado?

Será que estou presente para o que está a acontecer neste momento? E pode ser algo agradável e pode ser algo que me incomoda. Mas aquilo é tudo o que existe para mim naquele instante. E a questão que surge na mente pode ser, o que é que posso fazer com isto?

Se a pessoa que gostaria que estivesse ali está ausente, será que posso aproveitar a companhia dos que estão presentes? Será que posso estar presente para mim?

E se a resposta  for negativa, posso sempre questionar o porquê de querer estar a lamentar a ausência de alguém, quando existe tudo o resto ao meu dispor.

Qual o pensamento que me leva ao sofrimento de querer o que não existe neste momento e rejeitar o restante. Em especial, que pensamento me conduz à rejeição de mim.

Será que considero que não sou suficiente para mim, e que necessito do outro para preencher o que acredito não ter?

Será que preciso que o outro me dê o que acredito não me conseguir dar?

E será que já pensei alguma vez sobre o assunto? Ou limito-me a reagir aos pensamentos que surgem, quando não tenho o que acredito estar a fazer-me falta?

Caso considere útil, posso sempre parar para pensar sobre os pensamentos que surgem na mente. De que forma estes pensamentos alteram a minha respiração, as sensações no corpo, e de que forma é que eu reajo ao que estou a sentir e a pensar.

Posso dar início a um processo de questionamento, onde fico mais presente para mim e para o que está a acontecer.

E não tem de ser agradável. Mas também não preciso de amuar ou fazer uma birra.

Posso só ficar quieto e em silêncio, e começar a prestar atenção aos pensamentos que surgem.

Na realidade, posso ficar presente para a vida que acontece naquele momento.

E nada indica que é um processo fácil de se iniciar. Mas se nunca o fizer, não saberei qual é a sensação de apenas estar presente no momento, sem mais histórias e sem dramas a acontecer.

Limpar o nevoeiro

De início, é como olhar através de uma janela muito suja e nem sabemos bem por onde começar. 

 

Acontece por vezes com pessoas que iniciam um trabalho de desligar o estado de piloto automático o não saberem o que as está a incomodar.

Quando surge a questão ” afinal o que gostaria de resolver”, a resposta é muitas vezes “não sei”.

Sim, existe um desconforto, uma insatisfação, uma raiva ou uma tristeza, mas não sabemos exatamente a origem. Apenas sabemos que não queremos sentir essa sensação e procuramos formas de camuflar e de fugir.

Como se esta sensação se encontrasse lá fora e, ao fazer um processo de fuga, conseguíssemos encontrar a boa disposição que achamos nos vai transformar.

Acontece que esta sensação é interior e, à medida que vamos fugindo cada vez mais, torna-se cada vez maior, conduzindo-nos muitas vezes a uma de duas situações: ou aumentamos as doses do que quer que seja que estejamos a fazer para aumentar a fuga, ou o processo torna-se insustentável e buscamos algo que nos ajude.

Muitas das pessoas que já iniciaram este trabalho, tinham chegado ao ponto em que sentem que estão por tudo e dispostas a fazer qualquer coisa para deixar o desconforto.

Costumo brincar com isso e dizer “bem-haja pelo desconforto. Por ser o motor que nos leva a olhar para o que nos rodeia de maneira diferente.”

E é neste estado de nevoeiro mental que iniciamos muitas vezes um processo de olhar para dentro. É neste estado que estamos disponíveis para o momento presente.

De início, é como olhar através de uma janela muito suja e nem sabemos bem por onde começar. 

Mas, aos poucos, a janela começa a ter espaços mais luminosos, por onde se consegue espreitar e eventualmente perceber que o que nos incomodava afinal já não faz sentido.

E, bocado a bocado, os espaços luminosos são cada vez maiores. O nevoeiro dispersa-se e conseguimos ter uma ideia mais concreta do que nos rodeia, das histórias que contamos sobre o que está a acontecer no momento.

E tornamo-nos muito mais observadores do momento presente, em vez de reativos.

E o momento presente, é tudo aquilo que temos.

Uma espécie de abandono

Na realidade, a nossa mente quer que as coisas aconteçam conforme ela planeou e não conforme estão a acontecer e, nesta altura, o abandono pode ser intenso.

 

Na minha experiência, as relações são um dos grandes motores para nos voltarmos para dentro e tentar perceber um pouco melhor o desconforto interior existente, seja quando não funcionam de acordo com as expectativas, seja quando acabam.

As emoções que se instalam numa relação fora das expectativas ou quando esta acaba, são muitas vezes entendidas como algo a evitar, algo para camuflar e não sentir.

E tudo é válido para evitar estas emoções, mas sejam quais forem as desculpas utilizadas, na realidade é feita uma espécie de abandono, onde todos os pensamentos se direcionam para a fuga e para a superfície, não vá sentir-se alguma emoção mais dolorosa e indesejada.

Esta espécie de abandono também é muitas vezes feita de forma obsessiva, onde os pensamentos sobre o outro surgem quase vinte e quatro horas por dia, no desejo que as coisas mudem e voltem ao que era desejado (e não ao que era na realidade).

Como se um lado dissesse que as coisas já não faziam sentido e que era a altura de seguir por outro caminho e outro lado trouxesse ao de cima as pequenas recordações que mantinham a situação.

Na realidade, a nossa mente quer que as coisas aconteçam conforme ela planeou e não conforme estão a acontecer e, nesta altura, o abandono pode ser intenso.

Abandonamo-nos para viver a vida do outro, para pensar no outro permanentemente, para pensar como as coisas poderiam ter sido se “eu tivesse feito as coisas de maneira diferente” ou para fugirmos do que estamos a pensar.

Desocupamos o nosso T1, que se transforma num T0, para ir viver num T1 do outro, que por sua vez fica demasiado apertado. E isto porque não queremos as coisas que estão a acontecer, queremos que mudem, que a vida mude, que funcione de acordo com o que estamos a pensar, de acordo com o que queremos.

Contudo, e por mais doloroso que este processo possa parecer, permite-nos iniciar uma forma diferente de sentir e de lidar com todas as emoções. Permite-nos perceber que o que a mente quer é diferente do que eu sou na totalidade.

E posso aproveitar um processo doloroso para iniciar uma viagem, para mergulhar no interior, e perceber que posso voltar a ocupar o meu T1 e ficar presente para mim, naquele momento, e ficar maravilhado com o que acontece, com o que me rodeia, com o facto de estar aqui a respirar, sem qualquer esforço.

Inspiro…Expiro!

Sou igual mas sou diferente

Uma das questões que ocorreu tinha a ver com o que é mais correto: uma pessoa que se sente confortável a fazer uma tarefa rotineira durante toda a sua vida ou uma pessoa que é criativa e que faz coisas diferentes?

 

Andei uns tempos a prestar atenção a um certo tipo de pensamentos que me deixavam bastante incomodada.

Olhava à volta e pensava que deveria ter outro tipo de comportamentos em determinadas situações, que deveria ser mais igual aos outros.

Acabei por pedir apoio a um querido amigo com quem aprendi a trabalhar com estas ferramentas de educação emocional e que ajudou muito no papel de olhar a situação com outros olhos.

As questões que surgiam rondavam o “será que é verdade que tenho de ter o mesmo comportamento dos outros” e “o que é que vai acontecer se eu for igual?”

Ganhei mais consciência do facto de andar por vezes atrás de comportamentos que me conduzem à rotina e à estagnação, quando a minha natureza é de movimento e de criatividade.

Se a vida me colocasse nas situações que eu achava que deveria ter, a minha resposta seria eventualmente a de ficar farta muito rapidamente e a de ir à procura de outra coisa que me preenchesse com mudança e inovação.

Uma das questões que ocorreu tinha a ver com o que é mais correto: uma pessoa que se sente confortável a fazer uma tarefa rotineira durante toda a sua vida ou uma pessoa que é criativa e que faz coisas diferentes?

Na realidade, a resposta que surgiu é que ambas são corretas. Se sinto bem-estar a fazer a mesma rotina, sou igual à pessoa que sente bem-estar na variedade. Sou igual na busca desse bem-estar, tal como sou equivalente no prazer que retiro dessas sensações.

E sim, somos diferentes no que procuramos para atingir as sensações que nos fazem sentir bem.

Mas quando tenho uma maior consciência dessas diferenças nos outros, ganho mais espaço para ficar em paz com elas.

E percebi que para mim, a perfeição que eu tanto buscava, é equivalente a estagnação.

Para o outro…não sei…

(dedicado ao Emídio Carvalho)

As crenças extraordinárias

Contudo, todas as crenças residem em nós, até as descobrirmos, até ficarmos conscientes do quanto movimentam a nossa vida e até percebermos que são pensamentos e que não temos necessariamente de acreditar naquilo que surge na nossa mente.

 

Aprendemos o funcionamento do que nos rodeia nos primeiros anos de vida. Isto inclui a aprendizagem emocional.

Acreditamos saber o funcionamento das coisas de uma forma muito mais subtil do que possamos pensar e as crenças emocionais movimentam a vida sem darmos conta disso.

Uma dessas crenças que considerei ser muito importante para mim foi “eu não sou suficientemente boa”. À medida que trabalhei comigo, fui percebendo que o facto de ter esta crença enraizada no inconsciente condicionava o que se encontrava à minha volta, os comportamentos dos outros, os desfechos das situações e, em última análise, as minhas reações que originavam tudo o resto.

Quando comecei a ficar mais em paz com este acreditar inconsciente, desligando-me destes pensamentos, iniciou-se uma mudança que deu origem a uma maior serenidade.

Contudo, todas as crenças residem em nós, até as descobrirmos, até ficarmos conscientes do quanto movimentam a nossa vida e até percebermos que são pensamentos e que não temos necessariamente de acreditar naquilo que surge na nossa mente.

E há uns tempos veio à superfície uma crença muito mais subtil para mim, que movimentou muitas situações e comportamentos, sem que eu desse conta, até essa altura. Foi extraordinário ter a perceção como essa crença me tocava: ter o pensamento “eu não sou importante” e acreditar que era verdade, foi a origem de muita mágoa e muita tristeza ao longo de tanto tempo.

Perceber que era uma crença subtilmente enraizada e dar conta desse facto foi surpreendente, tal como foi surpreendente perceber que não acreditava na realidade quando alguém me dizia que iria sentir a minha falta ou que aquilo que eu estava a fazer era realmente necessário.

E também prestar atenção às atitudes que tinha como reação, onde mostrava ao outro que estava à minha frente que não era importante para mim, já que eu traduzia o que estava a acontecer através desta crença e mostrava ao outro que não era importante para mim já que eu não era importante para ele, foi doloroso mas também muito libertador.

Existem muitas outras crenças que nos movem ao longo na vida, não pela sua existência, mas porque acreditamos que são verdade, desde “eu não sou merecedor” até “a vida é difícil”, a lista é grande e algumas são mais fáceis de identificar do que outras. Depende da experiência de cada um.

Foi um sonho angustiante, que me deixou desconfortável e que me fez parar para tentar perceber porque me sentia tão mal. E no momento em que surgiu a consciência desta crença, acordei um bocadinho mais para a serenidade, ao constatar que o outro mostra-me o que penso de mim, lá bem no fundo e que, no momento em que deixo de acreditar nestes pensamentos, a vida flui numa leveza muito mais presente.

O silêncio despertador

 

Mas é no silêncio que vamos ao encontro dos pensamentos que doem e incomodam e que os podemos questionar.

 

Fugimos muitas vezes do silêncio, optando por situações e coisas que nos distraem do potencial estado de silêncio e que nos pode conduzir ao confronto de pensamentos ameaçadores.

Preferimos as distrações das saídas com os amigos, da televisão ou das redes sociais, para não enfrentar o que consideramos ser o mais assustador que existe em nós, para não enfrentar o que escondemos nas caixas do sótão ou da cave, porque consideramos estas descobertas demasiado assustadoras.

Mas é no silêncio que vamos ao encontro dos pensamentos que doem e incomodam e que os podemos questionar.

E podemos eventualmente encontrar uma nova forma de olhar para as coleções de situações, das caixas e dos caixotes e perceber que, afinal, já não são tão assustadoras.

Esse novo olhar poderá inclusivamente mostrar-nos o que tirámos de útil dessas situações, e ficar em paz daí para diante. Em paz com as situações e com os outros.

Sim, o silêncio pode ser assustador, mas também pode conter a serenidade que gostaria de encontrar e não sei como.

Retirar o que não importa

E podemos passar o tempo a olhar para fora e a julgar o que está mal, ou podemos olhar para dentro com curiosidade e perguntar se a camada para onde estamos a olhar ainda nos faz sentido ou é apenas algo que nos acompanhou, mas que já pode ser retirada.

 

Nunca fui muito de retiros…até passar a ser.

Se me dissessem há uns anos atrás que eu iria estar alguns dias a questionar o que vai cá dentro, a reação imediata era rir do assunto e achar que não era para mim.

Até chegar a altura de me sugerirem o primeiro fim-de-semana a olhar para dentro. Algo que surgiu naturalmente e que aceitei com curiosidade.

Foi uma experiência libertadora. Recordo de ter passado muito tempo a gastar os lenços de papel existentes no local. Tal como recordo de ter saído de lá com mais de 30 picadelas de mosquito (bati o record de picadas de insetos nesse fim-de-semana).

Mas também saí de lá com algo de diferente. Ou dito de outra forma, saí de lá sem algumas das cascas que cobriam a minha serenidade.

Como disse uma pessoa quando alguém lhe perguntou o que andava a fazer nas sessões de educação emocional “ando a descascar cebolas!”.

Esta é a grande aventura de um retiro. E pode ser feito durante um fim-de-semana, ou pode ser feito durante a vida toda: retiramos o que não importa, para destapar o que sempre esteve em nós: a serenidade e a paz interior.

E podemos passar o tempo a olhar para fora e a julgar o que está mal, ou podemos olhar para dentro com curiosidade e perguntar se a camada para onde estamos a olhar ainda nos faz sentido ou é apenas algo que nos acompanhou, mas que já pode ser retirada.

E camada após camada, tornamo-nos mais serenos e mais completos. Mais em sintonia com o que nos faz sentido.

Afinal não é para ir de férias

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

 

Ir de férias nesta altura era o que estava programado. Pelo menos era o que estava marcado na agenda. Mas a Vida mostrou que não era bem assim. A garganta do filhote inflamou e as febres começaram.

De repente, toda a planificação destes dias mudou. A agenda passou muito rapidamente a ter marcadas as horas para as tomas dos medicamentos e os dias passaram a incluir as medições com o termómetro.

Não é a primeira vez que tal acontece, nem a segunda. Na verdade, é algo muito habitual desde que ele nasceu: são marcadas férias e, de repente, algo acontece e os dias são alterados.

Recordo das minhas frustrações quando ele era mais pequeno. Cumprir prazos e planificações era muito importante para mim. Mais do que isso, era prioritário.

Mas a Vida foi mostrando que o que estava na agenda não era assim tão importante, que o que estava programado por mim poderia esperar ou ser alterado.

E desta forma, aprendi que posso fazer uma de duas coisas: ficar frustrada porque o que achava que iria acontecer tinha mudado, ou adaptar-me.

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

Eventualmente, a inflamação desaparece e chega a altura de irmos para outras paragens. E o tempo de convalescença foi aproveitado para estarmos na companhia uns dos outros. Não é para isso que as férias servem também?

A taça das cerejas

 

Umas são rápidas a surgir, prontas a serem olhadas de outra forma. Outras são mais demoradas, levando o tempo necessário para se tornarem percetíveis, para ficarem visíveis. “Deixa cá ver o que esta cereja me diz”. E, logo a seguir, surge mais um pé-de-cereja, a tornar-se visível e a mostrar que estava entrelaçado no anterior.

Quando iniciamos o desligar do piloto automático, surgem assuntos que pensamos estarem esquecidos, mas que estão lá bem atrás, no meio do inconsciente, e que fazem aparecer o que não desejamos na Vida.

Aquelas situações que não queremos olhar e que nunca mais queremos voltar a ver e sentir, mas que se sentem presentes pelo repetir dos padrões nas situações, com as pessoas e com o que surge no dia-a-dia.

O relacionamento frustrante, o trabalho não reconhecido, o amigo que trai, a mãe que controla, o pai ausente, todos fazem parte da taça de cerejas. E quando se inicia o desligar do piloto automático, começam a surgir as situações do passado que ficaram escondidas lá atrás, umas atrás das outras.

Umas são rápidas a surgir, prontas a serem olhadas de outra forma. Outras são mais demoradas, levando o tempo necessário para se tornarem percetíveis, para ficarem visíveis. “Deixa cá ver o que esta cereja me diz”. E, logo a seguir, surge mais um pé-de-cereja, a tornar-se visível e a mostrar que estava entrelaçado no anterior.

E o que é que este me quer mostrar?

E, aos poucos, a taça fica com mais espaço, mais livre, com uma ou outra cereja para olhar e sentir.

Utilizar todos os sentidos é muito útil para se iniciar este desligar, para esvaziar a taça. É muito útil prestar atenção ao corpo e às sensações mais ou menos desconfortáveis que sentimos. Ajuda-nos a prestar atenção a nós, em vez de reagirmos ao que está a acontecer de forma automática. O que é que sinto quando surgem os pensamentos sobre determinadas situações do passado?

Deixa cá ver o que esta cereja me faz sentir?

E o desconforto físico que pode surgir é bem-vindo. Posso parar e questionar onde estou a sentir, em que situações sinto este desconforto. E, desta forma, olhar para a taça e ficar presente para mim.

E porque todo o tempo, é tempo de cerejas.