Arquivo de etiquetas: emoções

Afinal não é para ir de férias

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

 

Ir de férias nesta altura era o que estava programado. Pelo menos era o que estava marcado na agenda. Mas a Vida mostrou que não era bem assim. A garganta do filhote inflamou e as febres começaram.

De repente, toda a planificação destes dias mudou. A agenda passou muito rapidamente a ter marcadas as horas para as tomas dos medicamentos e os dias passaram a incluir as medições com o termómetro.

Não é a primeira vez que tal acontece, nem a segunda. Na verdade, é algo muito habitual desde que ele nasceu: são marcadas férias e, de repente, algo acontece e os dias são alterados.

Recordo das minhas frustrações quando ele era mais pequeno. Cumprir prazos e planificações era muito importante para mim. Mais do que isso, era prioritário.

Mas a Vida foi mostrando que o que estava na agenda não era assim tão importante, que o que estava programado por mim poderia esperar ou ser alterado.

E desta forma, aprendi que posso fazer uma de duas coisas: ficar frustrada porque o que achava que iria acontecer tinha mudado, ou adaptar-me.

E aprendi que adaptar-me é estar no presente, e se isso significar fazer verificações de temperatura corporal e tomas de medicamentos, é essa a realidade do momento, sem acrescentar o stress da frustração, das reclamações mentais e das queixas.

Eventualmente, a inflamação desaparece e chega a altura de irmos para outras paragens. E o tempo de convalescença foi aproveitado para estarmos na companhia uns dos outros. Não é para isso que as férias servem também?

A atenção perturbadora

Tal como não existe a quantidade de sal ideal para cada prato, porque varia ao gosto de cada um, também não consigo identificar a quantidade ideal de atenção ao outro.

Falava no outro dia com uma pessoa que está regularmente a fazer sessões individuais e que tinha identificado que era muitas vezes demasiado atenciosa com os clientes no local de trabalho.

Ser atencioso para com os outros é algo importante para esta pessoa, mas a forma como o fazia transformava-se em algumas ocasiões em algo negligente.

Como podemos ser negligentes por ser demasiado atenciosos? Como é que passamos de um estado para o seu oposto?

Curiosamente, foi ao observar o comportamento de alguém num restaurante e na forma assertiva como essa pessoa dizia não às solicitações dos funcionários que a identificação foi feita.

O facto de sermos muito atenciosos com alguém, pode na realidade significar que não prestamos atenção a nós próprios, colocando o que achamos ser o bem-estar do outro (e não é necessariamente verdade, já que é o bem-estar de acordo com a nossa experiência e não a experiência do outro) à frente do nosso bem-estar e a qualquer custo.

Ou pode haver alguém que está à espera de ser atendido durante mais tempo que o habitual, porque a outra pessoa está a ter muita atenção.

Então, o que é ser atencioso q.b.?

Tal como não existe a quantidade de sal ideal para cada prato, porque varia ao gosto de cada um, também não consigo identificar a quantidade ideal de atenção ao outro.

Na realidade, a quantidade de atenção pode ser medida por questões interiores:

– O que me conduz a este comportamento?

– Será que necessito que o outro pense bem de mim?

-Ou será que necessito de ser atenciosa porque não quero perder a atenção do outro?

Ser atencioso porque me faz sentido, é algo que me deixa em paz, mas ser atenciosa porque quero algo do outro, é algo que me pode deixar descontente quando não tenho a troca que pretendo.

Sim, ser muito atencioso pode ser perturbador.

À espera que aconteça

Continuamos a esperar que algo aconteça, que altere a sensação atual, que alivie a pressão. Desejamos a mudança, mas sem a necessidade de alterar os comportamentos que a promovem, tal como desejamos ganhar uma lotaria pela qual não apostámos.

À espera que aconteça alguma coisa.

O quê? Por vezes muitas coisas. Outras vezes, nem sabemos.

Apenas esperamos que a Vida desenrole alguma coisa, para nos sentirmos melhor do que estamos a sentir no momento.

Como se algo no futuro fosse aliviar o desconforto presente. Como se estivesse lá à frente a solução das sensações presentes.

Esperamos ter mais dinheiro, um melhor relacionamento, o emprego desejado, uma saúde melhor…qualquer coisa de diferente do que existe.

Continuamos a esperar que algo aconteça, que altere a sensação atual, que alivie a pressão. Desejamos a mudança, mas sem a necessidade de alterar os comportamentos que a promovem, tal como desejamos ganhar uma lotaria pela qual não apostámos.

E o que pensamos sobre o que está a acontecer? O que pensamos sobre o que existe para nós naquele instante?

Será que prestamos atenção a toda a abundância que nos rodeia? Pelo ar que respiramos, por mais um dia disponível, pela presença dos que nos acompanham, pela capacidade de rir e de chorar?

E se eu mudasse o comportamento e prestasse atenção ao aqui e agora, ao que está a acontecer no momento, será que continuaria à espera de acontecer alguma coisa? Ou será que o desconforto iria dar lugar ao fascínio por tanta coisa a acontecer, pela simplicidade que nos acompanha.

Será que preciso mesmo de esperar, ou será que está acontecer neste momento?

Bem-vinda tristeza!

 

Achamos que precisamos de estar alegres e, quando a tristeza surge, devemos lutar contra ela, unir esforços para a ocultar e fingir que está tudo bem. Algo semelhante à expressão “temos de ser fortes!”

 

Vivemos por oposição e por comparação, até ganharmos consciência dessa vivência.

Acreditamos que temos necessidade de evoluir, que existem coisas que têm de ser trabalhadas em nós e nos outros, acreditamos que existe algo de errado e que tem de ser mudado.

Mas será verdade?

Em conversa com uma querida amiga, falávamos sobre abraçar a tristeza presente.

Não se sabe muito bem porque ela está ali, apenas se sabe que está. E o que causa o desgaste e a insatisfação, não é essa tristeza presente naquele momento. Apenas a necessidade de lutar contra ela.

Achamos que precisamos de estar alegres e, quando a tristeza surge, devemos lutar contra ela, unir esforços para a ocultar e fingir que está tudo bem. Algo semelhante à expressão “temos de ser fortes!”

E será que não está tudo bem quando estamos tristes?

E o que é que pode acontecer se abraçarmos a tristeza do momento, se a sentirmos na totalidade, dizendo-lhe “olá tristeza, sê bem-vinda”?

Será que esta tristeza se instala permanentemente ou, por outro lado, é vivida e dá lugar a outra emoção?

Esta vida feita de ciclos e de impermanências, será que quer ficar permanentemente triste, ou será que muda, dando lugar a outros ciclos e emoções?

E se eu abraçar a tristeza com alegria? Será que continuamos na dualidade do momento presente, ou será que a dualidade vai dar lugar ao todo, deixando de lado a necessidade de lutar contra uma emoção, apenas sentido o que é para sentir naquele momento?

Bem-vinda tristeza!