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Não sei, eu não vi

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

 

Sou por vezes questionada sobre o facto de ter tempo para fazer tantas coisas ao mesmo tempo.

Em boa verdade, as coisas não são feitas ao mesmo tempo, mas uma de cada vez e conforme o tempo disponível.

Mas pensando um bocado sobre o assunto, não costumo perder tempo com as questões dos outros, a não ser que me peçam para tal.

Nunca perdi muito tempo a dedicar-me à vida alheia e, quando me pedem opinião sobre o assunto, eu não sei o que dizer, já que não estou dentro da vida do outro, pelo que não me desgasto com essas questões.

E este tempo é aproveitado para me dedicar a algo que gosto e que dá prazer ou a algo que está por fazer e é útil que fique resolvido.

Dedicar-me ao que está a acontecer no momento também tem grande utilidade, em vez de me dedicar ao passado ou ao futuro.

Nesta parte já fui muito habilidosa e já dediquei muito tempo a construir histórias mentais, que apenas serviam para consumir tempo e energia.

E hoje em dia, todo este tempo que está à disposição é na sua maior parte utilizado para o que acontece no momento, e para o que me diz respeito.

Se não tem a ver comigo ou se não está a acontecer, é provável que dedique pouca atenção.

E sim, gosto de planear coisas para o futuro mais próximo ou mais longo. Pensamentos do tipo acontecem: “Apetece-me crepes para o jantar e quero ir comprar coentros para o recheio.”

E se não houver coentros? Logo se vê. Faz-se qualquer outra coisa.

Não existe resistência neste processo. Não existe atenção e energia canalizados para algo que não vai de encontro à solução.

Não se canaliza atenção e energia para algo que não existe e não está a acontecer.

E o tempo disponível é utilizado para outras coisas. Para me dar atenção, para dar atenção ao que gosto, para dar atenção aos que estão presentes no momento.

Não sei, eu não vi, liberta-me a atenção do que está no exterior, para que possa olhar para o momento atual que existe para mim.

São histórias senhores! São histórias!

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

 

E aquelas maluqueiras que nos atacam logo pela manhã, quando estamos ainda muito ensonados, e nos deixam logo num verdadeiro estado de tristeza ou ansiedade?

Algumas surgem diretamente do passado, quando ficamos a matutar sobre o que aconteceu e não deveria ter acontecido.

Outras vêm de um futuro que não existe (o futuro é assim mesmo), e atormentam-nos de forma compulsiva, quando alimentamos estas histórias sobre o que deveria ou não ocorrer.

E, muitas vezes, entramos diretamente nestas histórias e achamos que são verdadeiras, sem pararmos para pensar se existem neste momento.

Não paramos para respirar fundo e para olhar em volta. Não paramos para perceber que, afinal de contas, existe o aqui e agora e existem as histórias que estão a desenrolar-se na minha cabeça.

E o que faz a diferença é a forma como acreditamos ou não nessas histórias.

Tal como no outro dia, quando me atrasei mais de uma hora para ir buscar o filho. Aparentemente ele estava acompanhado e nada indicava que algo estava mal, mas a ansiedade começou a crescer fortemente.

Curiosamente, antes de entrar nesta história de estou atrasada e tenho de me despachar, questionei porque é que sentia tanta ansiedade e o que era o pior que poderia estar a acontecer naquele momento.

Fez-se luz no momento em percebi que efetivamente o que estava a acontecer naquele momento era uma viagem de automóvel e que o resto não era real.

Respirei fundo, aproveitei aquela viagem e, quando cheguei ao pé do filho, ele estava tranquilo, bem-disposto e estava tudo bem.

Sem histórias e sem dramas sobre o que acontece, a vida parece fluir de maneira diferente.

Na realidade, a vida continua como sempre esteve. Eu é que a observo com outra perceção.

E este processo é gradual e vai sendo experienciado ao longo do tempo, se assim o entender.

Mas quando o faço, o que acontece ganha outro aroma. Ganha o aroma da tranquilidade e da disponibilidade para o que realmente está ali naquele momento.

 

Amarrar os camelos

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

 

Gosto de histórias pequenas, de contos e de parábolas.

Gosto da forma como parecem conter tanta informação em tão aparentemente pouco espaço verbal ou de escrita

E uma das parábolas que utilizo muito em trabalho de educação emocional é a parábola que fala do mestre que pede ao seu discípulo para amarrar os camelos antes de irem para a pousada. No outro dia de manhã, os camelos tinham ido embora e, quando o mestre questiona o discípulo, este dia que colocou os camelos nas mãos de Deus, ao que o mestre responde, mas nós somos as mãos de Deus.

No outro dia, durante uma sessão, surgiu a ideia de comparar os camelos ao tempo que temos disponível para nós. Será que amarramos os camelos, estando presente para o que está a acontecer, ou será que deixamos os camelos ir embora, lamentando o que já aconteceu ou fazendo futurologia sobre o que não sabemos se vai acontecer.

Deixamos o tempo presente correr, muitas vezes sem olhar para o que acontece, limitando-nos a responder em modo automático, permitindo que parte do tempo abale sem darmos conta disso.

Contudo, quando prestamos atenção ao que vai no interior, mesmo que seja desconfortável, ganhamos a possibilidade de parar e sentir o que pode ser feito no momento presente.

E isso, pode conduzir-nos às respostas que se encontram à nossa volta e que deixamos ir embora, pelo facto de nem sequer pararmos de vez em quando para as olhar.

E você, já amarrou os seus camelos hoje?

Onde estou eu? Estou mesmo aqui!

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

 

A partir de uma certa altura da vida, comecei a ter muitas dúvidas sobre o que andava a fazer. Será que é correto fazer isto ou ir por aqui? E será que se fizer isto, será que vou chegar onde pretendo?

As dúvidas deram origem a muitas crises de meia idade, independentemente da idade física onde me encontrava. E também deram origem a muita ansiedade e a muito stress. E a muita necessidade de fazer as coisas bem, de forma perfeita, como se o que estivesse a ser feito não fosse o melhor que soubesse fazer, como se eu não estivesse no momento certo ou devesse estar noutro lado qualquer.

Na realidade, eu não tinha consciência de onde estava e que esse momento era perfeito, fosse um momento que eu rejeitava ou um momento de prazer.

Mas sem esses processos todos de ansiedade e de questões que me faziam permanecer “lá fora”, eu não teria chegado aos processos mais serenos de estar “cá dentro”.

E ao longo destes processos de busca de onde é que raio é que estou? e o que raio é que estou aqui a fazer? fui ganhando (e continuo a ganhar) uma forma diferente de estar.

Ao ponto de, por exemplo, ir caminhar ou correr e sentir muito mais o que se passa aqui dentro do que se passa lá fora.

E gosto de fazer todo esse movimento físico em locais que gosto de olhar para o que me rodeia, mas também estou nesse momento a prestar atenção à respiração e ao movimento dos pés e ao cansaço que vai surgindo, em vez de prestar atenção ao final do processo e à necessidade de chegar ao fim.

Durante muito tempo fui encontrando desculpas para não fazer coisas que gostava e que me faziam sentir bem, como sair de manhã e ir fazer uma caminhada, por exemplo.

Até que algo aconteceu aos boicotes de “estou cansada” ou “agora está frio” ou “agora não tenho companhia” já que foram substituídos por pensamentos do tipo “olha, afinal até acordei cedo e vou sair” ou “o tempo até ajuda, pois não está a chover neste momento” ou “e se chover durante o processo logo se vê”.

O que estava a acontecer lá fora deixou de ter tanta importância sobre o que está a acontecer cá dentro. E, naturalmente, o que sabe bem cá dentro foi ficando mais transparente e foi acontecendo mais vezes.

E percebi que não estou lá à frente, a tentar chegar à meta de qualquer coisa, estou mesmo aqui, a fazer o percurso, com a sensação boa do movimento e também com o cansaço e a incerteza de que não sei se lá vou chegar ou como vou chegar.

E o lá à frente deixou de ter tanta importância, porque eu estou mesmo aqui. No sítio exato onde é para estar.