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Deserto de pensamentos

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

 

Recordo dos tempos em que já não suportava a conversa incessante a acontecer na mente.

Dos pensamentos que vinham e das histórias que aconteciam logo de seguida e de forma permanente.

Recordo das narrativas intermináveis que aconteciam na mente e que me deixavam muito ansiosa e sem capacidade de reagir ao que estava a acontecer no momento de forma distante.

Ao fazer este trabalho de educação emocional, algo começou a mudar dentro das histórias. Deixaram de ser tão intensas e tão frequentes.

Dei por mim a ter o que chamava de ilhas de serenidade na minha mente.

Estes espaços não tinham origem em nada distante, mas sim no que estava a acontecer no aqui e agora.

Também lhe chamava um deserto de pensamentos – espaço mental onde nada de especial acontece e apenas existe o presente.

E depois lá vinham os pensamentos que davam origem às histórias e tudo voltava outra vez.

Não com tanta intensidade, mas lá estavam presentes, juntamente com o que estava a acontecer.

Aos poucos, e à medida que questionava as narrativas do passado ou as histórias do futuro e encontrava o que traziam de útil para mim, fui ficando mais confortável com todos os pensamentos presentes.

Deixei de desejar não pensar sobre os assuntos, para parar e pensar sobre a verdade dos mesmos. “O que é que este pensamento diz sobre mim?” “Qual a história que estou a contar na minha mente que me faz sentir desconfortável?” “Onde é que aprendi este desconforto?”

Aprendi que questionar os pensamentos que surgem é uma ferramenta eficaz para dar espaço às ilhas de serenidade.

Eu não preciso deixar de pensar. Posso sim pensar sobre estas histórias que penso sobre mim, questionar se são verdadeiras e onde é que as aprendi.

O deserto de pensamentos deriva do processo de questionar esses mesmos pensamentos.

E quando encontro as vantagens dos mesmos, eles vão embora.

A ligação dos opostos

 

Sinto-me privilegiada pelas aprendizagens desta situação. Pelo facto da vida me mostrar que cada um é como é, e que é de grande arrogância da minha parte tentar mudar o outro à imagem que eu pretendo.

 

Lutei durante bastante tempo para tentar mudar alguém num relacionamento. Acreditava que essa pessoa deveria ser diferente e quando percebi que isto não iria acontecer, cheguei a dizer que nada tínhamos em comum e que o melhor era ficarmos afastados.

Percebi algum tempo depois que este afastamento derivava do facto de eu não conseguir mudar o outro, pela frustração que sentia de não ter as coisas à minha maneira.

Contudo, e de uma maneira surpreendente, a vida mostrou-me algum tempo depois que aquilo que eu mais apontava como debilidade e fraqueza daquela relação, era na verdade o seu ponto forte.

Afinal não temos muito em comum, é verdade, temos gostos muito diferentes e dedicamos o tempo disponível com atividades distintas e por vezes opostas.

Mas o que une estes opostos, é na realidade o prazer da companhia do outro. O prazer do riso, o prazer do silêncio, o prazer da conversa, o prazer do abraço. O prazer de estar em cada minuto na presença do outro.

Sinto-me privilegiada pelas aprendizagens desta situação. Pelo facto da vida me mostrar que cada um é como é, e que é de grande arrogância da minha parte tentar mudar o outro à imagem que eu pretendo.

Por me mostrar que lutar contra alguma coisa é um processo inútil, pois a vida acontece como tem de acontecer.

E por me mostrar que, se alguém quer estar na minha companhia pelo prazer de estar e não porque precisa de alguém para fazer alguma coisa é a melhor união de todas.

Os opostos ligam-se e não se sabe muito bem porquê ou até quando. Ligam-se pela satisfação de estar, sem justificações ou desculpas, sem adereços ou cenários.

E deixam de ser opostos e tornam-se iguais no desejo comum desta ligação. O ponto fraco passa a forte.

Assim.

Tão simples.

 

Somos colecionadores de pensamentos

coleção

Como seria descobrir que, ao abrir esses álbuns, encontraríamos a moeda que nos iria permitir sorrir sem motivo, respirar fundo apenas porque sim e estar presente no momento, sem mais estórias?

 

Colecionamos pensamentos, muitas vezes correspondentes a estórias que contamos sobre culpas, medos e vergonhas, que vamos juntando dentro de nós e que tentamos esconder dos que nos rodeiam.

São afinal as coleções mais preciosas, as que nos acompanham quase permanentemente, as que fazem parte de nós.

Mesmo sem nos darmos conta, lá estão as coleções de pensamentos na montra, cheias de pó, mas prontas a saltar para fora a qualquer momento.

Divididas por álbuns ou por montes, surge a coleção de “não sou suficientemente bom” ou “não sou merecedor”.

Também existem os grandes álbuns “ninguém gosta de mim” ou “eu sou um coitadinho”.

Coleções cheias de pensamentos, que queremos deixar na montra, com pó, sem lhes tocar mais.

E se essas coleções tivessem valor, como aqueles selos ou aquelas moedas esquecidas, mas com um valor incalculável?

Como seria descobrir que, ao abrir esses álbuns, encontraríamos a moeda que nos iria permitir sorrir sem motivo, respirar fundo apenas porque sim e estar presente no momento, sem mais estórias?

As coleções estão lá, a espreitar na montra, e podemos continuar a adicionar pensamentos que acumulam pó, ou podemos optar por abrir os álbuns e começar a olhar para as páginas e para o que dizem de nós.

Ocasionalmente, surge aquela moeda ou aquele selo que percebemos fazer parte de nós e nos permite dar aquele sorriso. Sem qualquer motivo. Apenas porque sim.